A (nova) origem e das uvas viníferas e por que isso importa, por Pablo Fernandez.

A (nova) origem das uvas viníferas e por que isso importa

Olá! A coluna deste mês vai tratar de um assunto diferente dos últimos dois meses. Talvez vocês tenham lido na imprensa na semana passada (02/mar/2023) que pesquisas genéticas inéditas descobriram que os humanos começaram a cultivar a uva vinífera há 11.000 anos, o que seria muito antes do que se pensava. Este artigo, publicado na revista Science e brilhantemente explicado por Jamie Goodie em seu site, trouxe essa nova perspectiva sobre a verdadeira origem das uvas. Mas por que isso é importante?

O estudo de 2023 e as novas descobertas

Antes desse estudo, algumas análises genéticas feitas em pequena escala apontavam que o cultivo da uva havia ocorrido num intervalo entre 15.000 e 400.000 anos atrás – o que não é um intervalo assim dos mais precisos, concordam?

Além disso, também se supunha que a videira cultivada para vinho, Vitis vinifera, foi domesticada pela primeira vez no Cáucaso (Geórgia), na Ásia Ocidental, e que todas as principais variedades usadas hoje vieram dela.  Também se acreditava que as castas de vinho foram cultivadas antes das castas destinadas somente à alimentação, as chamadas variedades de mesa. Nessa pesquisa, os investigadores encontraram evidências sugerindo que todas essas suposições estavam erradas.

O estudo inédito de Yang Dong e equipe resgatou dois eventos de domesticação que aconteceram quase simultaneamente há 11.000 anos. Essas domesticações ocorreram em diferentes partes do mundo, uma na atual Israel (conhecida historicamente por Levante) e outra no Cáucaso, (onde se acreditava que estava de fato a origem da uva do vinho). Para esse estudo Dong e equipe obtiveram e estudaram os genomas de 2.448 amostras de videiras coletadas em 23 locais envolvendo 16 países. As amostras incluíam variedades de uvas silvestres e domesticadas. Os pesquisadores criaram um genoma de nível cromossômico de Vitis sylvestris e sequenciaram 3.186 coleções de variedades, usando-o como referência.

O estudo revelou que as variedades de uvas viníferas atuais podem ser divididas em dez grupos:

quatro grupos de vinhas silvestres e seis grupos de vinhas viníferas (uvas de mesa da Ásia Ocidental, uvas de vinho do Cáucaso, uvas de mesa e de vinho Moscatel, uvas de vinho dos Balcãs, uvas de vinho ibéricas e uvas de vinho da Europa Ocidental).

Percebeu-se ainda que as mudanças climáticas tiveram um papel importante na evolução das uvas. Aliás, a história da evolução da videira é fascinante. Conforme esse estudo, as videiras viníferas de hoje descendem de uma proto-vinha (vinhas selvagens) que se dividiu em duas variedades há cerca de 500.000 anos. Uma variedade, chamada de “Syl-e”, floresceu no Cáucaso e no Levante, enquanto a outra, “Syl-w”, cresceu na Europa Ocidental.

Durante o último período glacial, uma tendência de resfriamento fez com que as temperaturas caíssem e as condições se tornassem mais hostis para as videiras. Como resultado, diferentes variedades desenvolveram mecanismos distintos  de sobrevivência. A variedade “Syl-e” se dividiu em “Syl-e1” e “Syl-e2” há 56.000 anos, com a “Syl-w” seguindo o exemplo na sequência.

Cerca de 11.000 anos atrás (início do período Neolítico ou período da pedra polida), uma variedade de “Syl-e1” – chamada de CG1 no estudo – foi cultivada perto da atual Israel (Levante) e, segundo esse novo estudo, se tornou o ancestral de quase todas as variedades modernas. Enquanto isso, um processo semelhante estava em andamento com a “Syl-e2” – gerando a casta CG2 – no Cáucaso, atual Geórgia. Devido ao relevo montanhoso, a migração desta casta foi mais limitada, resultando em castas mais isoladas, sem relação direta com as variedades da Europa Ocidental – e de fato alguns sequenciamentos já demonstravam haver certa distância genética aí (ver figura abaixo).

Outra curiosidade que esse estudo trouxe é que adomesticação da videira coincidiu com os estágios iniciais do desenvolvimento da agricultura.

O Levante é o lar de muitas de nossas primeiras espécies de plantas domesticadas, como trigo, cevada, linho e lentilhas, e a uva agora também pode ser adicionada a essa lista.

Porém, ficou a questão da confirmação se essas uvas eram cultivaras para consumo ou para fermentar em álcool. Um dos pesquisadores concluiu que, neste ponto da história humana ainda, a uva era destinada apenas para consumo in natura. Mesmo assim, ele explica que foi um desenvolvimento marcante, já que a videira foi provavelmente a primeira colheita de fruta domesticada pelos humanos.

O estudo argumentou que, enquanto as videiras domesticadas no Levante deram origem às uvas de mesa que comemos hoje, as do Cáucaso acabariam sendo usadas para vinificação. O cultivo da videira ocorreu na mesma época do trigo, e ambos desenvolvimentos viriam a criar uma nova revolução da bebida para a humanidade, fornecendo os meios para a produção de vinho e cerveja. Esses dois itens viriam a ser dois dos primeiros bens comercializados globalmente, tornando-se impulsionadores de trocas comerciais mundo afora e, por que não, protagonistas da expansão e desenvolvimento da civilização.

Inicialmente domesticada para consumo como uva de mesa e não para vinificação, a variedade CG1 teve um enorme impacto no mundo moderno do vinho. Saindo do Levante, ela se espalhou pelo globo, a começar pelo leste, através do Corredor de Montanhas da Ásia Central Interior, se estendendo até a Índia e a China e mutando para a CG3. Posteriormente, viajou para o norte até o Cáucaso (mesmo local da CG2), passando pelas montanhas Zagros, para na sequência ser levada em direção noroeste para a Anatólia (Turquia) até os Bálcãs. Ali mutou para CG4 e alcançou o oeste costeiro do norte africano. Por fim, foi propagada para a Península Ibérica (CG5) e Europa Ocidental (CG6).

Os pesquisadores descobriram ainda vários fatores genéticos que desempenharam um papel na domesticação das uvas, que, segundo eles, podem ser usados para melhorar o processo de vinificação. Isso porque muitas áreas onde as uvas são cultivadas devem sofrer transformações  ambientais à medida que as mudanças climáticas se agravam.

Mas será que é isso mesmo?

Em entrevista ao jornal Washington Post, Patrick McGovern, arqueólogo biomolecular do Museu da Universidade da Pensilvânia e autor do livro “Ancient Wines”, expressou suas ressalvas sobre as conclusões deste estudo. McGovern acredita que a pesquisa não forneceu evidências suficientes, argumentando que

consumir e cultivar uvas silvestres para alimentação e bebida é uma coisa, e domesticar a videira é algo muito mais complexo.

Ele conclui que a pesquisa não forneceu evidências suficientes para suportar sua ideia central, sugerindo que a domesticação de videiras requer extensa habilidade em horticultura e que evidências arqueológicas, arqueobotânicas e/ou químicas convincentes são necessárias para provar a domesticação.

Já Jamie Goode, autor do artigo mencionado no inicio do texto, conversou com um dos pesquisadores para questionar por que não há evidências arqueológicas diretas para apoiar a teoria principal da pesquisa. O pesquisador sugere a Goode duas possibilidades: a primeira é que as datas talvez tenham sido superestimadas por causa dos efeitos da propagação vegetativa, que podem desacelerar o relógio molecular dos genomas. A segunda possibilidade é que houve um longo período de exploração de formas de uva silvestre, o que significa que os primeiros estágios de domesticação não são evidentes no registro arqueológico. Isso é semelhante à situação dos cães, que pareciam lobos por muito tempo antes que a “morfologia canina atual” se estabelecesse.

Em conclusão, Goode sugere que genomas antigos para amostras arqueológicas de sementes de uva podem ser a melhor maneira de descobrir mais sobre a domesticação de videiras. Embora exista o consenso de que as uvas estavam entre os primeiros domesticados, a falta de evidências arqueológicas diretas cria um novo mistério para os pesquisadores.

Um olhar para o passado pode moldar o futuro

Sempre foi do interesse da comunidade científica o melhor entendimento da origem e evolução da uva e da videira. Essa investigação vem acontecendo com observações – como fizeram os romanos como Plínio o Velho em Historia Naturalis -, com o desenvolvimento da ampelografia no século 19 e, mais recentemente, com a Ampelologia, que usa novas tecnologias, como o DNA já a partir da década de 1990.

Pra concluir, a evolução da planta da videira nada mais é do que a sua reação de sobrevivência em consequência de alterações climáticas e adaptação ao ambiente em que ela está inserida. Assim, é crucial entender todo esse contexto para que num futuro não muito distante exista a possibilidade de enfrentar os novos desafios impostos pelas mudanças climáticas.

Compreender o passado das variedades poderá nos ajudar a moldar (salvar?) o presente da indústria do vinho.

Assinatura Única Pablo Fernandez

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