A revolução pop nos vinhos

Revolução Pop: Seja um bilionário, trabalhe com vinhos e torne-se milionário

Não é de hoje que escutamos essa frase na indústria dos vinhos. Para quem está pensando em se tornar um milionário no vinho sem ter seus bilhões acumulados, o choro é livre. O que se vê repetidamente mundo afora é que a nossa indústria atrai muitos dispostos a perder dinheiro ou a investir com uma visão de longuíssimo prazo, pensando nos netos ou bisnetos. Apesar de a indústria de vinhos ter muitas oportunidades de trabalho, ainda é um segmento extremamente ligado à paixão e lifestyle, atraindo bilionários dispostos a não ganhar tanto dinheiro, mas interessados no prestígio que podem obter nesse mundo.  

 

O vinho já era considerado de requinte há milhares de anos, remontando às civilizações antigas com os gregos e os romanos. Nessas sociedades, a bebida era frequentemente associada aos deuses e usada em cerimônias religiosas, tendo se tornado ainda mais valorizada na Europa medieval, quando era apropriada pela nobreza como símbolo de riqueza e status. Com a ascensão do “novo mundo” do vinho no século XX (Estados Unidos, África do Sul, Austrália etc), a criação de grandes marcas de prestígio foi a resposta de qualidade aos melhores “terroirs” do velho mundo. Hoje, a era Tik Tok, em que tudo é instragramável, é o palco ideal para o vinho se preservar nos holofotes como um objeto de desejo.

 

Embora em muitos países do mundo, como Itália e França, o consumo da bebida tenha um cunho relativamente popular e ela seja considerada um alimento como qualquer outro à mesa, o vinho consegue também há séculos manter essa aura de clube privado ao qual poucos pertencem de fato. Uma antítese extremamente complexa de explicar, em que o pináculo da cadeia é ser um produtor de vinhos de alta estirpe.

E nós, meros mortais e stalkers das mídias sociais, já sabemos: onde existe exclusividade moram as celebridades.

Eis que eu apresento a vocês: a revolução pop nos vinhos.

Vinho e rede social

Celebridades e vinho: um relacionamento sério

Sempre soube que celebridades tinham vinícolas aqui ou ali. Qual fofoqueiro de plantão não acompanhou o caso Miraval (aquele rosé da Provence), em que a vinícola foi comprada por Angelina Jolie e Brad Pitt quando estavam casados e depois foi palco de babado e confusão na hora da divisão dos bens? A disputa pela parte do casal dentro da vinícola ainda se estende. Ano passado, a Decanter Magazine publicou que o Château Miraval disse que está tudo normal na vinícola, depois que surgiram boatos de que o coproprietário Brad Pitt entrou com uma ação legal contra Angelina Jolie pela venda de uma participação na propriedade. Aproveitando o marketing envolvendo duas mega celebridades, a Miraval também está reabrindo um estúdio de gravação na propriedade. Antes usado por Pink Floyd, AC/DC e Sting, entre outros artistas, o novo visual do Miraval Estúdios foi reformado por Pitt e pelo produtor francês vencedor do Emmy, Damien Quintard.

E que aficionado por Champagne não lembra do caso Jay Z e Maison Roederer em 2006, até ele decidir investir em seu próprio Champagne? No início de sua carreira, o magnata do hip-hop era um amante do Champagne Cristal, ajudando a aumentar a fama da marca entre seus fãs. No entanto, isso mudou depois que o diretor administrativo e atualmente CEO da marca, Frédéric Rouzaud, fez comentários que o rapper considerou racistas. Jurando nunca mais promover a marca, Jay Z mais tarde adquiriu uma participação na Armand de Brignac, e o Ace of Spades Gold Brut virou o Champagne oficial do rapper. 

Tem também o Hampton Water Rosé, o vinho rosé do Bon Jovi. Já imaginou uma festa com “It’s my life” – hit do cantor – regado de Hampton Water Rosé? Marketing melhor não existe. Para os fãs de esportes, tem Cabernet Sauvignon da Wade Cellars, vinícola do Dwyane Wade, ícone do basquete americano. E que tal um vinho natural, orgânico e com uma linha de saudabilidade liderado pela Cameron Diaz, atriz Hollywoodiana, e sua parceira de negócios, Katherine Power?. Juntas, as duas lançaram a linha de vinhos Avaline com o slogan “Founded by friends, for friends” (“Fundada por amigas, para amigos”). 

Os exemplos são muitos, do nosso Galvão Bueno e sua Bueno Wines (pode isso, Arnaldo?), ao icônico roteirista e cineasta, nosso poderoso chefão Francis Ford Coppola, com a sua também aclamada vinícola em Napa Valley. Do Toscano típico Il Palagio, que fez o coração do rock star Sting e de sua esposa, ao Champagne ecológico Telmont, em que Leonardo DiCaprio resolveu não só investir, como o levou a inovar na produção das garrafas mais leves da região, reduzindo a pegada de carbono do produto. São inúmeros os casos de celebridades investindo em vinícolas, mas até então as histórias se pareciam, e repetidamente observávamos essas personalidades comprando vinícolas ou criando marcas para ajudar na divulgação delas. Esse assunto não viraria um artigo meu se não fosse o caso Kylie Minogue.

O caso Kylie Minogue

Confesso que não sabia muito bem quem era Kylie Minogue, mas fiquei intrigada ao ver em todos os supermercados de Londres uma garrafa de Prosecco rosé com o nome da cantora no mês de março deste ano (2023).

A primeira coisa que devemos lembrar é que Prosecco rosé é um fenômeno bastante recente. As primeiras garrafas foram lançadas na safra de 2019, já que antes disso a denominação de origem não permitia a produção de rosés.

Logo após me deparar com os vinhos de Kylie em todos os supermercados, recebi um e-mail com muitos importadores brasileiros também copiados. A mensagem dizia que ela estava em busca de expandir sua marca para o Brasil ainda este ano. Mais tarde, estive na Prowein (maior feira de vinhos do mundo que acontece em Düsseldorf, na Alemanha), e a Kylie Minogue estava lá pessoalmente, atraindo multidões, fotógrafos e fãs –  algo que eu não me lembro de testemunhar em nenhuma feira de vinhos no mundo em mais de uma década de profissão. A feira é feita para o trade do vinho, e ela muitas vezes é vista como formal e um pouco conservadora. Mas quem pensou no stand da cantora não se importou com quem iria estar na feira, e sim com o que queria dizer da marca: Pink! Neon e flores rosas de várias tonalidades davam o tom. Atrás do stand um tatuador fazia tatuagens para quem quisesse se arriscar. Éramos encorajados a pensar no vinho, mas a nossa criatividade era o limite. 

Estamos falando de uma marca lançada em 2020 pela cantora e compositora Kylie Minogue com Paul Schaafsma, da Benchmark Drinks, que já foi capaz de vender 8 milhões de garrafas em menos de três anos. As principais referências à venda sob a chancela da marca são os vinhos rosé da Provence, o Prosecco rosé e um vinho espumante sem álcool… rosé. Tem também Pinot Noir e Chardonnay da Austrália, sua terra natal, e um Sauvignon Blanc fresco de Côtes de Gascogne, França. Sua intenção é, em pouco tempo, ter uma linha de Champagne rosé. Em entrevista para a Meininger’s magazine, Kylie diz que já investiu em linhas de perfume, lingerie e diversos outros produtos, e em todos os segmentos ela se vê bem-sucedida. Com o vinho, portanto, as ambições não serão diferentes. O fato de seu nome estar estampado nas garrafas faz com que ela se sinta responsável pelo que é engarrafado e, por isso, afirma se envolver em vários processos da produção, inclusive no blend dos vinhos em Provence.

No ano de 2022, Kylie Prosecco Rosé foi o Prosecco Rosé mais vendido no Reino Unido, com £8 milhões (US$11,1) em vendas, 46% a mais que seu concorrente mais próximo. A linha da Kylie agora é vendida em 31 países e logo vai desembarcar no Brasil. 

O caso Kylie Minogue é, na minha opinião, um divisor de águas em termos de como as celebridades vão se relacionar com investimentos no mundo do vinho. Muitos no passado queriam ser donos de vinícolas já renomadas no mercado, outros queriam lançar marcas que não necessariamente trouxessem conexão com seus nomes. Alguns estavam preocupados com o processo produtivo e o impacto no meio ambiente de outras vinícolas, como no caso DiCaprio. Outros projetos, como o de Coppola, nasceram com a intenção de enoturismo, focados n*o espaço da vinícola e no processo de produção.

Antagonizando tudo isso, Kylie Minogue é uma vinícola virtual. Ela não tem todas as uvas, nem todos os maquinários. Ela só tem como propriedade uma marca que é ela própria. Sarah Jessica Parker e Drew Barrymore já davam sinais parecidos antes de Kylie de como as coisas estavam começando a mudar. Os nomes de ambas atrizes estampam garrafas de vinhos feitas em parceria com vinícolas e estão fazendo buzz na internet há alguns anos, mas não tiveram a chance de virar um hit de vendas. Ainda. Em tempos em que as mídias sociais fazem de todos nós grandes marcas, acredito que esse é só o começo de muitos casos como esses.

Veremos cenas dos próximos capítulos, em que as collabs do mundo pop invadirão as prateleiras de vinho, e o vinho deixará de ser só a paixão ou o lifestyle das celebridades, para passar a ser um negócio importante na construção de suas próprias marcas pessoais.

Assinatura Karene Vilela Vinhos Única

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