Áustria: um passeio no centro da Europa

Áustria: um passeio no centro da Europa

 Descubra vinhos com contraste entre maturação e frescor!

Pelo que a Áustria é conhecida? Localizada no centro da Europa, sua capital, Viena, tem relevância histórica no cenário internacional, lugar sede da Convenção de Viena. Mas, talvez o país seja conhecido por algumas de suas personalidades, como Wolfgang Amadeus Mozart, Sigmund Freud, Robert Musil, Arnold Schwarzenegger, Gustav Klimt e outros.

Ou pode ser que a fama venha dos esportes de inverno, como ski e hóquei no gelo. E não podemos esquecer da gastronomia, com o famoso Wiener Schnitzel (prato feito com filé de porco empanado, acompanhado por batatas fritas e com inúmeras variações) e o delicioso Apfelstrudel (sobremesa feita com massa folhada e recheada com maçãs).

Como vocês podem ver, a Áustria tem inúmeras facetas e não para por aí. O país também tem grande tradição vitivinícola e vem surpreendendo cada vez mais pelo alto nível de qualidade! Então, sem mais delongas, vamos entender um pouco desse setor.

História

A Áustria produz vinho há séculos, registros mostram que Celtas e Romanos já cultivavam vinhas ali desde 700a.C. Com a expansão do Império Romano, novas técnicas de cultivo foram implementadas. Provas foram encontradas às margens do Rio Danúbio, próximo ao Lago Neusiedl, no sul de Burgenland, local que foi um antigo município romano.

Entre os séculos 10 e 12 d.C, os monges cistercienses trazem a cultura do vinho da Borgonha para a Áustria através da Abadia de Heiligenkreuz. Foram eles que começaram a cultivar nos vales dos rios e estabeleceram os primeiros de terraços na região de Wachau.

Por volta do ano 1170, quando os governantes Babenbergs transferem a sede do seu ducado para Viena, a viticultura na nova capital tem um boom. Durante o século 15, a área plantada com vinhas atinge o nível mais elevado já visto, uma área três vezes maior que a área plantada atualmente. 

No século 17 a viticultura sofreu grandes reveses com as guerras religiosas, impostos exorbitantes e com o aumento da popularidade da cerveja. Entretanto, no século seguinte marca o início da reavaliação científica das práticas vitícolas na Áustria com a fundação da primeira escola e centro de pesquisa de viticultura e enologia em Klosterneburg.

Uma queda na área plantada começa durante o fatídico século 19 com a crise da Filoxera, que devastou vinhedos por toda a Europa. Pouco depois, acontecimentos políticos também contribuíram para uma queda, com o colapso da Monarquia dos Habsburgos, a área plantada diminuiu de 48.000 hectares antes da Primeira Guerra Mundial para cerca de 30.000 hectares na década de 1930.

Nos anos 1950, o viticultor Lenz Moser publicou seu trabalho introduzindo o sistema de condução de vinhas altas e facilitando a mecanização, o que resultou num aumento de rendimentos. Na década de 1980, esta técnica de condução foi implementada em quase 90% da área plantada. Em 1995, com a entrada da Áustria na União Européia, adotou-se a legislação vitivinícola da comunidade europeia.

Cenário Atual

Propriedades familiares dominam o cenário da viticultura austríaca, razão pela qual o foco da indústria não está na produção em massa. Apesar da tradição, a Áustria tem se apresentado como um país moderno na produção de vinhos com qualidade reconhecida internacionalmente; os vinhos austríacos oferecem uma excelente qualidade.

Cerca de 20% da área de cultivo funciona em acordo com as definições de Práticas Sustentáveis da Áustria, fato decorrente de condições climáticas favoráveis, como veremos em breve. Dentro dessa porcentagem de cultivo sustentável, 22% é feito organicamente, sendo que ⅕ dessa parcela é biodinâmica.

Um número crescente de jovens viticultores passa a se concentrar numa viticultura ‘eco friendly’ (traduzindo: amiga do meio ambiente), fazendo mudanças assim que assumem o negócio e testando novos mercados com vinhos naturais, vinhos brancos fermentados em mosto e vinhos sem enxofre ou com teor reduzido de álcool.

Devido à elevada intensidade de mão-de-obra inerente aos métodos de produção artesanais, bem como às rigorosas restrições de rendimento, a Áustria só pode vender o seu vinho a preços próximos ao de custo em situações excepcionais (por exemplo, grandes colheitas, ofertas de comercialização únicas, vendas, etc.).

Clima

A Áustria encontra-se na mesma latitude da Borgonha, região francesa responsável pela produção de grandes ícones como o Romanée Conti. De forma geral, pode-se definir o clima como continental fresco, entretanto, o país encontra-se mais ao centro da Europa, sendo uma zona de transição entre o clima Atlântico e o Continental, além de receber influências frescas vindas do Norte e brisas quentes vindas do mediterrâneo.

Além das grandes influências climáticas citadas acima, algumas regiões também terão influência de rios, como o Danúbio, e dos Alpes, cadeia montanhosa que cerca o país. Nesse cenário, são diversos microclimas que darão origem a diferentes perfis de vinho.

Os níveis de precipitação no país são baixos, o que resulta em um baixo risco de doenças e fungos, tornando possível uma viticultura mais sustentável e sem uso de pesticidas. 

A conjuntura geral permite que as uvas amadureçam bem, expressando seu potencial fenólico (de armas e sabores) ao mesmo tempo em que as diferenças substanciais de temperatura entre o dia e a noite e as influências climáticas garantem bons níveis de acidez, trazendo frescor aos vinhos. 

Uvas


Na Áustria, existem 40 castas – 26 brancas e 14 tintas – oficialmente aprovadas para a produção de Qualitätswein, Prädikatswein e Landwein. Entre essas variedades, encontram-se tanto uvas nativas (Grüner Veltliner,  Zweigelt, Blaufränkisch, Sankt Laurent) como internacionais (Riesling, Sauvignon Blanc, Pinot Blanc, Chardonnay, Pinot Noir, Merlot, Cabernet Sauvignon).

Como as uvas internacionais são já bem conhecidas e temos informações sobre elas em diversos lugares, aqui vamos focar nas principais castas regionais!

Grüner Veltliner


Antiga variedade local, a Grüner Veltliner, tem ganhado cada vez mais fama. Essa casta origina vinhos em uma ampla variedade de estilos. Desde os tipicamente mais leves e apimentados até exemplares mais ricos e encorpados com grande potencial de guarda.

A uva exibe um perfil fresco, com acidez elevada. Entre seus descritores comuns temos notas de frutas tropicais, como carambola e pêssego, notas de groselha verde e pimenta branca. Os vinhos mais ricos podem se beneficiar de um período de envelhecimento em carvalho.

Welschriesling

Apesar do nome, essa uva não tem relação com a Riesling. Apresenta altos níveis de acidez e um perfil aromático neutro. Geralmente é usada para produzir dois estilos de vinho: frescos e leves ou vinhos doces feitos pela podridão nobre (Botrytis cinerea). É a segunda variedade branca mais plantada no país, porém cada vez mais em declínio. 

Zweigelt

Uva tinta mais plantada, a variedade é um cruzamento entre as uvas Sankt Laurent e Blaufränkisch. Seus vinhos geralmente apresentam níveis médios de taninos e boa acidez. O perfil normalmente é bem frutado com notas de cereja. Pode-se encontrar estilos mais jovens e frutados, sem passagem em madeira, assim como exemplares mais complexos. 

Blaufränkisch

Segunda uva tinta mais plantada, a Blaufränkisch tende a produzir vinhos com altos níveis de taninos, cor intensa e aromas pronunciados de frutas pretas.

Sankt Laurent

A variedade St. Laurent é de alta qualidade, apresentando bagos pequenos e boa resistência a climas frios.Os vinhos geralmente são aromáticos e com muita intensidade de cor, os taninos costumam ser macios e os descritores incluem frutas vermelhas, cereja e amora. Os melhores exemplares se adaptam bem à passagem em madeira.

Regiões

A área de vinhedo cobre 44.500 hectares, esse total é dividido em três principais regiões: Niederösterreich, com 26.968 ha, Burgenland com 11.648 ha,  Steiermark com 5.114 ha e  Wien (Viena) com 582 ha. Essas regiões são definidas como regiões vitícolas genéricas, mas existe um sistema de Denominação de Origem que conta com 18 sub-regiões específicas. Vamos conhecer algumas dessas!

Sistema de Denominação de Origem
No início dos anos 2000, surge a oportunidade de estabelecer regras para a produção de vinhos típicos da região, com a designação DAC (Districtus Austriae Controllatus) anexada ao nome da região vitícola. 

O sistema de denominação se aplica aos vinhos de qualidade austríacos (Qualitätswein) típicos das suas regiões, podendo ser também: Gebietswein – vinhos regionais, Ortswein – vinhos de um vilarejo e Riedenwein, vinhos de vinha única.

Apenas estes vinhos, controlados com um número de inspeção federal e inspecionados quanto à sua tipicidade, estão autorizados a imprimir no seu rótulo a sua origem em termos da região vitícola específica. Todos os outros vinhos devem ser comercializados sob o nome da respectiva região vinícola genérica (por exemplo, Niederösterreich).

Atualmente, são 18 DAC: Carnuntum, Eisenberg, Kamptal ,Kremstal, Leithaberg, Mittelburgenland, Neusiedlersee, Rosalia, Ruster, Ausbruch, Südsteiermark, Thermenregion, Traisental, Vulkanland Steiermark, Wachau, Wagram, Weinviertel, Weststeiermark, Wiener Gemischter Satz

Niederösterreich

Essa é a maior região austríaca cultivando uvas, ⅔ do plantio aqui é de castas brancas, sendo que metade é Grüner Veltliner. Por ser uma das maiores regiões, muitas das mais famosas sub-regiões e vinícolas aqui se encontram.

Wachau DAC

A região mais famosa da Áustria, mesmo que a área vitícola represente apenas 3% do total (1.350 ha). Situada ao longo da margem norte do rio Danúbio (20km), Wachau tem uma paisagem impressionante moldada pelo seu terreno geológico e pelos seus terraços de pedra, que foram construídos na Idade Média sob o domínio dos monges para permitir que a exploração das encostas fossem mais favoráveis para a produção de vinho.

As uvas são cultivadas com baixo rendimento e podem chegar a ter um potencial de álcool de 15%, mas muito frescor garantido pelas brisas noturnas. Os vinhos de Grüner Veltliner apresentam ótimo potencial de guarda e os Rieslings apresentam estrutura de boca cheia como os grandes vinhos da Alsácia.

Kamptal DAC

A região recebe seu nome do rio Kamp. A sudeste do Wachau e cerca de 80 km a oeste de Viena, na Áustria, beneficia da influência climática do Danúbio e das florestas de Waldviertel. As uvas aqui amadurecem muito bem, apenas Grüner Veltliner e Riesling podem ser usadas para a designação DAC. Grandes vinhedos encontram-se aqui, como Heiligenstein e Lamm. Os vinhos dessa região apresentam grande potencial de envelhecimento. Recentemente, alguns Pinot Noirs muito interessantes também foram feitos aqui.

Kremstal DAC

Situada ao redor da cidade de Krem, essa DAC demorou para concretizar o seu potencial de excelência, quando comparada às regiões vizinhas. Localizada entre Wachau e Kamptal, apresenta clima um pouco mais quente, ideal para o cultivo de uvas tintas como a Zweigelt. Entretanto, de acordo com as regras DAC, apenas vinhos feitos com Riesling e Grüner recebem a designação de origem, os tintos são classificados como Niederösterreich.

Apesar de não tão famosa, alguns produtores de vinho mostram que é possível ter excelentes Grüner Veltliners e Rieslings, muitas vezes mais acessíveis do que os de Wachau, que estão entre os melhores da Áustria. Um exemplo de produtor nessa região é o famoso Lenz Moser. 

Burgenland

Localizada na fronteira com a Hungria, Burgenland encontra-se em uma das áreas mais planas e quentes da Áustria, possibilitando um maior cultivo de variedades tintas. Cerca de 55% das plantações são de uvas tintas, sendo que as principais são Blaufränkisch e Zweigelt. Os estilos de tinto variam desde os mais jovens, frutados e fáceis de beber até os mais encorpados, intensos e com aromas de madeira nova.

Neusiedlersee DAC

Localizada às margens do lago de mesmo nome, essa região é plana, quente e úmida. Isso já te dá alguma pista de estilo de vinho? Não? Então, vamos lá!

Nos meses de outono, a temperatura do ar começa a cair, entretanto a água do lago continua quente. Pela manhã forma-se uma neblina, umidade alta propiciam o desenvolvimento de botrytis, entretanto, o fim de tarde mais seco e quente permite que a podridão nobre se desenvolva em condições saudáveis. 

A uva de destaque aqui é a Welschriesling, que tem aromas mais neutros e casca fina, sendo suscetível à podridão nobre. O resultado é a produção de vinhos TBA (trockenbeerenauslese) incríveis.

Mittelburgenland DAC

Localizada ao sul de Leithaberg, a região é quente e está exposta a uma grande planície. A Blaufränkisch é a principal variedade e produz diferentes estilos de vinho dentro da designação de origem.

Os vinhos mais simples normalmente ficam em tanques de inox ou grandes barris de carvalho, sem receber muita influência da madeira. Os vinhos um pouco mais complexos podem receber o nome do vinhedo, apresentam um teor alcoólico mais elevado e estagiam em carvalho. Os vinhos mais premium são classificados como Reserve, apresentam álcool mais elevado e precisam de um tempo mínimo em madeira.

Steiermark

Região também chamada de Styria, encontra-se no canto sudeste da Áustria, na fronteira com a Eslovênia. Os vinhedos normalmente estão em montanhas íngremes, em terraços. O clima frio torna a região conhecida pelos vinhos brancos secos, de alta acidez. A uva mais plantada é a Welschriesling, seguida por Sauvignon Blanc e Pinot Blanc (Weissburgunder). Aqui encontram-se três sub-regiões com designação de origem: Vulkanland Steiermark, Südsteiermark e Weststeiermark.

Wein (Viena)

Viticultura numa cidade? Sim! Muitas vezes, as vinhas urbanas não servem outro propósito senão atrair turistas – mas não em Viena. Os vinhedos da cidade desempenham um papel fundamental na economia local e ajudam a preservar o cinturão verde que circunda a cidade – sem falar no fato de produzirem alguns vinhos de qualidade. O tipo especial de vinho produzido em Viena – o Wiener Gemischter Satz (field blend) – foi adicionado à lista de vinhos DAC austríacos em 2013 e tornou-se agora o símbolo por excelência dos vinhos de Viena.

Disponível no Brasil

Mesmo sendo um país com uma área vitivinícola pequena, em especial quando comparado com outros países europeus, há uma grande diversidade entre vinhos austríacos. Entretanto, se for para definir o estilo do país como um todo, pode-se dizer que os vinhos tendem a apresentar uma característica consistente que os distingue dos demais: muito frescor, aromas e boa maturação.

A Áustria oferece uma ampla variedade de vinhos diferentes e interessantes. Apesar de a oferta não ser tão difundida no mercado brasileiro, é possível encontrar alguns exemplares. Se você tiver a oportunidade, não deixe de provar. Para encerrar, deixo abaixo algumas dicas de vinhos aqui disponíveis. É isso, pessoal! Espero que tenham gostado desse passeio e até a próxima!

Weinrieder Klassik Grüner Veltliner 2019

Heiderer Mayer, Zweigelt Rosé 2021

Zweigelt – Niederoosterreich 2017

Kracher Noble Reserve Tba 375mL

Assinatura Estela Mayra Vinhos Única

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