É EXCITANTE, DESAFIADOR E NÃO HÁ MARGEM PARA ERROS!

É excitante, desafiador e não há margem para erros!

Prepare-se para mergulhar em um texto repleto de dados e depoimentos que podem levá-lo a uma importante reflexão. O tema não é novo (infelizmente, cada dia mais presente em nosso cotidiano) mas, caso você não tenha lido meu primeiro artigo aqui na Única, vou repetir a minha pergunta: você já parou para pensar que o aquecimento global influencia até na produção dos vinhos que chegam às suas taças?

Quando falamos de mudanças climáticas, sempre pensamos em problemas de grande escala, como efeito estufa, camada de ozônio, queimadas, alagamentos, secas, entre outros. Mas esse problema está mais próximo do que você imagina.

Talvez você esteja acostumado a participar de degustações verticais e venha notando mudanças há algum tempo. Ou talvez você tenha descoberto um rótulo que se tornou o seu favorito e tem percebido que, a cada safra, o perfil do vinho está diferente. Eu confesso que só compreendi a magnitude do problema e suas consequências quando mergulhei de cabeça no mundo do vinho em 2019!

Vamos direto ao ponto: você sabia que, graças às mudanças climáticas e a outros fatores, como a alteração nas práticas de manejo dos vinhedos, atualmente o ciclo de vida da videira avançou em média onze dias em comparação com os anos 70?

Vem comigo nesta reflexão sobre a realidade atual e as previsões para o futuro da viticultura!

Mudanças no Ciclo Vegetativo e Seus Impactos

Durante o webinário Climenvi, François Cherrier, viticultor na região de Sancerre e Menetou Salon (Vale do Loire), compartilhou um pouco de sua experiência e disse uma frase que me marcou: “Meu avô começava a colheita aproximadamente no dia 15 de outubro. Meu pai, no começo de outubro. E eu, próximo do dia 20 de setembro”. Essa afirmação evidencia uma grande mudança em um curto espaço de tempo.

Essas três gerações foram influenciadas por eventos históricos no setor, como a crise da filoxera na Europa no final do século XIX, quando foram obrigadas a plantar novas videiras com porta-enxertos americanos. Nos anos 60, houve uma mudança no comportamento de compra e uma busca significativa por qualidade, obrigando-os a buscar as castas mais adaptadas a cada região. Nos anos 80, ocorreu uma evolução tecnológica, marcada principalmente pelo surgimento da colhedeira de uvas, seguida por uma revolução comercial onde os produtores tornaram-se comerciantes, buscando seus clientes em salões locais e em outros países. E durante todo esse período, a evolução climática vem acontecendo, exigindo uma adaptação constante, seja nas práticas no vinhedo, seja durante a vinificação.

Se a data da colheita mudou, você deve estar se perguntando: e o resto do ciclo vegetativo? A resposta é sim, todo o ciclo foi impactado, começando pela data do brotamento, que também antecipou, em média, quinze dias.

Estudos mostram que:

  • No passado (1976-2005): a média da data de brotamento era 20 de abril.
  • Futuro próximo (até 2050):

– Em uma hipótese intermediária que considera uma melhora nos problemas climáticos, ou seja, uma redução na emissão de gases de efeito estufa (hipótese intermediária): a previsão é para 3 de abril.

– Em uma hipótese pessimista, sem redução significativa na emissão de gases de efeito estufa: a previsão é 8 de abril.

  • Futuro a médio prazo (2071-2100):

– Hipótese intermediária: a previsão é 22 de março.

– Hipótese pessimista: a previsão é 29 de fevereiro.(*)

(*) Lembrando que a viticultura não é uma ciência exata.

E, se associarmos essa questão às geadas de primavera, a situação se torna ainda mais preocupante. Atualmente, temos uma média de 45 dias de geada no ano e no final do século XXI, a previsão é que este número seja dividido por 3 ou até mesmo 4.

Mas então, por que investir em soluções contra esse problema se o número tende a reduzir?

  • Primeiro porque é uma questão atual: Representou uma perda total da produção em safras como 2016 e 2021, por exemplo.
  • Segundo porque a data de brotamento também está evoluindo:

– No passado, a probabilidade de ter ao menos um dia de geada após o brotamento era de 30%.

– No futuro próximo, na hipótese pessimista, essa probabilidade é de 10%.

– No futuro a médio prazo, na hipótese pessimista, essa probabilidade aumenta para 40%.

E basta uma única geada para causar um estrago significativo!

Devemos considerar que o ciclo vegetativo da videira mudou, e daí? São inúmeras as diferenças e consequências, mas vou citar aqui algumas das principais.

  1. Aumento da temperatura global -> Redução do período de hibernação da videira.
  2. Redução do tempo de trabalho no vinhedo -> Gestão de equipe que precisa trabalhar em tempo recorde durante o inverno e com altas temperaturas ou em horários “fora” do padrão no verão.
  3. Brotamento precoce -> Maior risco com as geadas da primavera.
  4. Gestão das doenças e pragas -> Redução da qualidade e quantidade da produção.
  5. Diferentes padrões de precipitação -> “Quando chove, chove 100 mm e o período de seca dura 4 ou 5 meses sem uma gota de chuva”, como observado por Jean-Martin Dutour, produtor da AOC Chinon, durante o webinário.
  6. Períodos mais longos de canicule -> Colheita, vinificação e envelhecimento dos vinhos realizados sob altas temperaturas.
  7. Perda de acidez da uva e alto teor de açúcar -> Produção de vinhos mais pesados e potentes.

O aquecimento global é um fato e as estatísticas mostram a evolução da temperatura na cidade de Meusnes (Vale do Loire). Vejamos:

  • Temperatura média anual no passado: 11,4°C.
  • Projeções para o futuro próximo:

– Hipótese intermediária: 12,6°C.

– Hipótese pessimista: 12,7°C.

  • Projeções para o futuro a médio prazo:

– Hipótese intermediária: 13,9°C.

– Hipótese pessimista: 15,6°C.

Isso significa um possível aumento de mais de 4°C daqui até o final do século.

E o aumento da temperatura é igual a redução no tempo de trabalho no vinhedo. Jerome Sauvete, produtor da AOC Touraine Chenonceaux, que também participou do webinário disse, “Hoje o ciclo vegetativo começa muito mais cedo, o brotamento está cada vez mais precoce. Antes tínhamos até o fim de julho para trabalhar a videira, o que fazíamos em três meses, agora temos que fazer em dois. Temos que contratar mais profissionais temporários no período vegetativo para lidar com o desenvolvimento mais rápido da videira”.

Jerome detalha um pouco a sua rotina, onde em conjunto com sua equipe têm menos tempo para tratar o solo, para gerir a vegetação espontânea (que gera uma concorrência hídrica) e para fazer a poda. Além disso, todo esse trabalho é feito, muitas vezes, com o solo encharcado, dificultando o acesso a algumas parcelas de videiras e exigindo um esforço físico mais importante dos seus funcionários.

As denominações de origem controlada (AOC) estabelecem regras específicas para a produção de vinho, muitas das quais foram definidas em uma época em que as mudanças climáticas não eram tão predominantes e significativas. Uma das preocupações dentro dessas regras é a seleção das variedades de cepas adequadas para cada região. Para essa questão, os produtores utilizam o Índice Winkler, uma métrica desenvolvida pelo viticultor e enólogo norte-americano Albert J. Winkler.

O Índice Winkler é calculado pela soma das temperaturas médias diárias acima de 10°C durante o período de crescimento da videira, que geralmente vai de 1º de abril a 31 de outubro. Esse índice se tornou uma referência valiosa nas vinícolas para avaliar a maturidade das uvas, um fator crucial na qualidade e no perfil sensorial do vinho.

Por exemplo, na região do Cher, no Vale do Loire, o Índice Winkler era de 1078 – correspondente à Zona 1 – na década de 70, indicando um clima quase limite para a maturidade de certas cepas já plantadas. No entanto, as projeções para o final do século XXI indicam um aumento significativo deste índice, chegando a 1625 (Zona 2) na hipótese intermediária e até 2166 (Zona 4) na hipótese pessimista. Esses valores seriam equivalentes, respectivamente, ao Vale do Rhône, na França, ou ao Vêneto, na Itália.

Com base nas previsões das mudanças das zonas do Índice Winkler para o final do século, os produtores da região já podem começar a considerar mudanças. Uma possibilidade seria plantar cepas com brotamento tardio e maior resistência ao calor e seca como grenache, viognier, corvina, trebbiano ou até mesmo malbec. Outra opção seria ajustar a orientação do plantio, deixando um espaço maior entre cada cepa, por exemplo.

Outro ponto relacionado ao aumento da temperatura são as canicules (ondas de calor altíssimas). Há 40 anos, as uvas eram colhidas com um potencial alcoólico entre 10 e 10,5%. Atualmente, são colhidas com um potencial entre 13 e 15%, visando obter um bom equilíbrio entre as maturidades tecnológica, fenológica e acidez. No entanto, isso traz consequências como uma fermentação mais longa e dificuldades para o trabalho das leveduras. Além disso, imagine que as uvas são colhidas em temperaturas muitas vezes próximas de 20°C, ao contrário dos anos 70, quando a média era de 9°C. Isso dificulta o controle da temperatura do mosto na indústria, acionando a fermentação quase que imediatamente e muitas vezes o levando à oxidação enzimática.

Se abordarmos a questão do déficit hídrico, que é a diferença entre a precipitação e a água que evapora (evapotranspiração), podemos notar mudanças significativas. Ainda nos anos 70, não havia a necessidade de irrigar os vinhedos, pois o déficit hídrico se apresentava entre o meio de julho e o fim de agosto e não era tão severo (-35mm). No futuro próximo, o período do déficit hídrico aumentará, indo do meio de julho até o começo de setembro (-40mm), e no futuro a médio prazo, aumentará ainda mais, indo do começo de julho até o meio de setembro (-60 mm). É importante ressaltar que, nessa etapa do ciclo, o problema maior não é a precipitação, mas sim a evaporação da água, que ocorre devido ao aumento da temperatura.

Todos esses fatores não contribuem para uma colheita nem qualitativa nem quantitativa, pois afetam diretamente a capacidade de defesa da videira contra diversas ameaças potenciais, como problemas fisiológicos (má fecundação), doenças e pragas. Além disso, não favorecem nem a floração nem a frutificação da videira. O acúmulo desses fatores também acelera o enfraquecimento da videira, antecipando sua fase de declínio, raramente chegando a uma idade avançada.

Como mencionamos no início do artigo, a colheita está ocorrendo cada vez mais cedo. No entanto, uma vez alcançado o equilíbrio almejado, ela deve ser feita em tempo recorde para evitar a perda de acidez na uva. Com as temperaturas frequentemente ultrapassando os 40°C no verão europeu, as uvas apresentam um aumento no teor de açúcar. A combinação desses dois fatores tem um impacto na composição e no potencial aromático, resultando em uma mudança no perfil do vinho, podendo até mesmo gerar o surgimento de novos defeitos.

Apesar dessa importante perda de identidade do vinho, que inicialmente pode gerar incompreensão por parte do consumidor, esse novo estilo tem se adaptado ao perfil de consumo do público em geral. O resultado é um produto final atípico, mais alcoólico e frágil, com menor acidez, menor potencial de envelhecimento, mas pronto para ser consumido.

Verdade seja dita, as mudanças climáticas trazem inúmeros impactos negativos para o setor do vinho, mas felizmente também apresentam algumas melhorias significativas. Entre elas, podemos citar a melhora na maturidade das uvas, reduzindo o aspecto vegetal e herbáceo nos vinhos, como é típico das cepas cabernet franc e pinot noir, por exemplo. Além disso, há um aumento no teor de compostos fenólicos, especialmente antocianinas, que contribuem para uma bela cor, especialmente nos vinhos tintos. Com a seca durante o verão, também ocorre uma redução na quantidade de ervas daninhas, resultando em menos trabalho nessa época e menor probabilidade de infestação por insetos e pragas.

No geral, podemos dizer que os últimos anos têm presenteado os produtores com safras muito qualitativas.

Mas para aproveitar essa onda, foram necessárias algumas adaptações. Por exemplo, a preferência por terroirs de argila para evitar o estresse hídrico, além da retirada das videiras em terroirs de áreas mais vulneráveis, como areia por exemplo. Em seguida, a utilização de novos enxertos mais adaptados para buscar água em maior profundidade e a cobertura vegetal com ervas que ajudam a evitar o estresse hídrico e a manter uma temperatura mais amena no verão. Posteriormente, medidas de proteção contra geadas como aspersão, velas, fios de aquecimento e/ou torres anticongelamento, juntamente com uma nova abordagem na poda, preferencialmente tardia. E, ainda, novas práticas, como a plantação de outras árvores para ajudar no equilíbrio do ecossistema e mudanças na orientação da plantação das videiras para proteção contra o sol. Por fim, ajustes no cronograma e na gestão da equipe, das tarefas do cotidiano até a colheita, muitas vezes noturnas.

François Chidaine, produtor da região de Montlouis-sur-Loire, que também participou do webinário, foi enfático: “Nós vamos aprendendo à medida que as mudanças climáticas vão acontecendo”.

Porém, mesmo com toda a boa vontade do mundo, nem tudo são flores e existem algumas barreiras que impedem que as adaptações sejam realizadas na velocidade necessária. O alto investimento é uma das principais dificuldades! Entre inúmeros custos, somente a proteção anti-geadas representa €0,10 no preço final do vinho. As regulamentações das AOC e do INAO, por mais que busquem trazer segurança para o consumidor, começam a ficar obsoletas desde o vinhedo até as regras com relação ao período de vendas. Questões trabalhistas também surgem, com problemas relativos aos novos horários de trabalho, fora do habitual, principalmente durante o verão.

Soma-se a isso, a falta de profissionais qualificados; já está difícil encontrar trabalhadores temporários e mais ainda profissionais conhecedores de práticas mais ecológicas. O surgimento de novas regiões vitivinícolas, como Normandia, na França, Suécia, Noruega e Reino Unido, adiciona uma concorrência ainda maior em um mercado onde o consumo está cada vez menor.

Mas Fabien Demois, viticultor na região de Cravant-les-Coteaux – AOC Chinon, alertou durante o webinário: “O mais difícil é antecipar o trabalho, visto que algumas tarefas não podem ser feitas fora de época, como a fertilização no vinhedo, que se feita antes do tempo, parte com a água da chuva”.

Termino este artigo com a expectativa de que você, assim como eu, compreendeu o impacto das mudanças climáticas na viticultura, com uma perda entre 5 e 10% da colheita a cada safra. Todos os pontos apresentados já existiam no passado, mas o problema é que eles vêm se tornando mais frequentes e violentos. Cada safra traz uma novidade em relação aos anos anteriores e os produtores consideram isso excitante e desafiador. Mas existe um limite de tempo e de investimento.

Para o futuro, é necessário continuar alerta, pronto para adaptações e mudanças, e em constante busca de conhecimento e informações. Isso pode ser feito através de organismos como a câmara de agricultura na França, que têm por objetivo realizar testes para trazer dados e segurança aos produtores, através de profissionais especialistas no assunto que prestam consultoria, ou via troca de informações com colegas do setor.

Plantar uma videira é um compromisso assumido por uma média de 40 anos. Seria uma tolice não se atentar a essas problemáticas.

Fontes:

Mathieu Jehanno, consultor de vinhedos na câmara de agricultura Pays de la Loire

Christophe Beaujouan, consultor de meio ambiente e energia

Webinário de apresentação do projeto Climenvi 2021

Especial - Colunista convidado(a)

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