Fênix: as regiões que se renovaram

Fênix: regiões ressurgidas

Renascidas das cinzas, algumas regiões marginalizadas acabam por mostrar seu valor e atentar para o fato de que a preservação de uma identidade própria vale a pena. Como comentamos em outras colunas, o mundo cíclico dos vinhos, tendências de mercado e comportamento de consumo acaba por destacar determinadas regiões e estilos em certo período de tempo mais do que outros.

Já percebeu que todo mundo que quer se achar cool no mundo dos vinhos ressalta que amaaaa Riesling (alguns agora estão na vibe Chenin Blanc e Semillon) mesmo sem ter tido tantas experiências com esta uva?

E aquele consumidor mais old school que repete incansavelmente que, quanto mais alcoólico e amadeirado, melhor o vinho?

Pois ambos são retratos de “eras” do consumo de vinho. Enquanto o que se acha moderninho por gostar de Riesling sabe que esse é um dos vinhos mais mencionados por profissionais (por muitos motivos) e isso lhe faz parte da “manada”, aquele consumidor das antigas repete, sem saber muito por quê, afirmações que compõem um estilo muito valorizado na “era Parker”.

Há que se repelir esses comportamentos? Não. Definitivamente não. Mas vamos entender um pouco desses movimentos e qual a sua importância pra gente.

A volta das que sempre estiveram aí

Desde sempre movimentos políticos, sociais, migratórios e comportamentais movem a humanidade. No vinho não seria diferente. Por períodos não determinados – sem hora para começar ou acabar –, movimentos de consumo direcionam a produção e estilos para outro rumo que outrora não fora pensado. Algumas regiões, antes à margem das grandes clássicas, começam a ganhar espaço, ou recuperam prestígio, e estilos quase esquecidos voltam à tona.

Atualmente, com a informação que corre em altíssima velocidade, esses movimentos se difundem com maior rapidez e também podem ser substituídos na mesma intensidade de tempo. Já presenciei alguns deles e acho interessante pensarmos sobre como nos afetam, e mais. É preciso pensar como as narrativas “deste vinho não bebereis” podem não ser eternas, mas facilmente desconstruídas quando uma enxurrada de garrafas à sua frente ou um punhado de histórias lhe fizerem olhar com outro foco para algo antes impensável.

A era Parker e a receita de bolo

A mítica safra de 1982 em Bordeaux, o crescimento de posição dos vinhos californianos e novomundistas em geral e outros fatores levaram à tal “era Parker”, onde uma infinidade de produtores começaram a buscar não um estilo representativo de seu terroir e de suas possibilidades, mas um que agradasse ao supercrítico e seus leitores. Foi o momento dos flying winemakers, como Michel Rolland, ganharem notoriedade “ensinando” novos e tradicionais produtores a receita do sucesso. 

Nada de errado nisso, que fique claro.

Mas em determinado momento as pessoas se cansaram do mais do mesmo e olharam ao seu redor.

Começaram a brotar projetos de resgates, de expressões mais nítidas relacionadas à história do vinho como um todo.

New old Chile, vinos del pueblo e castas patrimoniais

O Vale do Itata e todo sul do Chile são exemplos claros disso. A indústria chilena, já consolidada internacionalmente por seus Cabernets, Carménères e outros vinhos de castas francesas e escolas clássicas, se viu voltando seus olhos aos vinos del pueblo, às castas patrimoniais. Em 1994, Pablo Morandé aventurou-se ao engarrafar Cinsault  – uma das castas mais antigas em cultivo no Chile – e teve um fracasso enorme em termos comerciais. A Viña Miguel Torres, por sua vez, apostou na País, a tal uva missionária implantada pelos espanhóis séculos antes. A Carignan, em valorosos vinhedos antigos, ganhou notoriedade. E assim renasceu o “new old Chile” com suas castas patrimoniais.

A indústria tradicional foi afetada? Pelo contrário. A aposta nessa diversidade, aliada com muitas histórias para contar, conferiu um novo gás ao mercado e ampliou o olhar dos consumidores sobre o país, que tem o espírito nato de explorar suas extremas possibilidades.

Na Europa também há espaço para o novo

Outra região até pouco tempo rechaçada e que tem voltado aos holofotes é a região de produção do Prosecco, na Itália. Na disputa acirrada entre Champagne e Cava pelo domínio do setor de espumantes, o Prosecco, com seu estilo mais leve, saiu perdendo. Aliado à própria predileção do consumidor por estilos um pouco mais austeros, criou-se também certa resistência à região em meio a disputas pelo uso do nome e outras crises que tiraram o foco da produção de seu imenso potencial de qualidade.

Há alguns anos, no entanto, o Consorzio de produtores vem investindo na mudança dessa imagem, diversificando a gama de produtos e surfando a onda dos vinhos mais leves, descontraídos e de menor teor alcóolico que os novos consumidores buscam. Foi assim que, ao lançar a categoria dos Proseccos rosés, a região se viu, às vésperas da pandemia, com estoques baixíssimos e um refresh de identidade muito importante. Dados do Consorzio mostram um crescimento de 20% em um período onde ocorreu um decréscimo de 12% na venda de Champagne no Reino Unido, por exemplo.

E, por fim, não podemos esquecer de Portugal, cuja volta por cima foi tamanha, que se tornou uma alternativa de castas às mudanças climáticas, levando Alvarinho e Touriga Nacional a comporem o seleto clube de uvas autorizadas na mítica e clássica região de Bordeaux.

Vem mais um movimento pela frente? Esperamos que sim e seguimos atentos. Até a próxima coluna!

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