God Save the Wine! O passado, o presente e o futuro do reinado inglês no mundo dos vinhos

God Save the Wine!

O passado, o presente e o futuro do reinado inglês no mundo dos vinhos

Há quase uma década que eu venho regularmente para a Inglaterra, ora para estudar, ora para trabalhar. O que eu tenho notado é que o mercado de vinho inglês está passando por uma transformação jamais vista: a ascensão da produção doméstica, o aumento de impostos regulares para os vinhos importados e uma recessão que colocou a terra da nossa saudosa “Betinha” a elevadas taxas de juro, que o Banco da Inglaterra subiu para níveis nunca vistos nos últimos 25 anos, a fim de combater a inflação.

 

A primeira pergunta que muitos de vocês devem estar se fazendo é: por que estudar vinhos na Inglaterra, e não em um grande país produtor de vinhos, como a França ou a Itália? A verdade é que, em termos de educação sobre vinhos, o Reino Unido foi pioneiro, tendo fundado o Institute of Masters of Wine em 1955 e, 14 anos depois, o Wine and Spirits Education Trust (WSET), que hoje está espalhado por mais de 70 países no mundo. O conhecimento dos ingleses em relação ao vinho está intrinsecamente ligado ao comércio, ou seja, à compra e venda. Devido às condições climáticas desfavoráveis para a produção de vinho de alta qualidade no país e à sua ascensão no século XIV como uma potência marítima próspera, os britânicos têm, historicamente, a oportunidade de ter bebidas de todo o mundo e fazer disso um grande laboratório de estudos para quase todos os estilos.

Uma pílula de história

Durante séculos, os ingleses foram reconhecidos por moldar a produção de muitas regiões. Os famosos vinhos do Porto, produzidos no Douro, dão aos ingleses o gostinho da fama pela forma como são produzidos. A ascensão do consumo de Sherry (ou Jerez em sua origem, na Espanha) é outra vitória inglesa. Mais recentemente, já no século XXI, os herbáceos Sauvignon Blanc da Nova Zelândia encontraram na Inglaterra o seu lugar e conseguiram se tornar um estilo adorado não só pelos ingleses, é verdade, como também pelo resto do mundo. Mas isso foi graças à força de promoção do mercado inglês em influenciar o consumo em muitos mercados. Logicamente, o exército de alunos educados pelas escolas de vinhos inglesas são os principais embaixadores dos estilos mais aclamados pelos “brits”.

Mas essa é apenas uma parte da história. A engrenagem está mudando rapidamente. Com o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), a Inglaterra em 2023 teve a maior greve geral realizada na última década. A inflação alta, a falta de mão de obra e a carência de investimentos colocaram o país em uma situação delicada e extremamente polarizada na política. No universo do vinho, o cenário não fica muito melhor: os consumidores de vinho enfrentaram o maior aumento único de impostos em quase 50 anos. Isso porque, em agosto de 2023, entrou em vigor o novo regime de impostos sobre álcool que tributa bebidas conforme o seu teor alcoólico. Ou seja, no fim do dia, os vinhos fortificados (Porto, Jerez e Madeira) ou de origens mais quentes (com mais álcool), que são cativos no mercado inglês, estão ficando mais caros na gôndola. O projeto faz parte de uma visão do governo em relação à saúde pública, já que, segundo a organização Alcohol Change, estima-se que existam 602.391 bebedores dependentes no país e apenas 18% deles estão recebendo tratamento. Para além disso, a estimativa é de que 27% dos bebedores na Grã-Bretanha bebem excessivamente. Os números relacionados ao alcoolismo em países maduros na distribuição de vinhos, como Inglaterra e EUA, fizeram com que iniciativas públicas forçassem o consumo de bebidas com menos álcool, o que desencadeou inúmeros novos estilos de NoLo Wine (No-Low alcohol wines – veja meu artigo sobre esse tema aqui).

O novo império das bolhas

Se você chegou aqui, já deve estar com uma certa pena dos órfãos da Rainha, mas não é só de notícia ruim que os britânicos vivem. As mudanças climáticas têm colocado a produção de vinhos ingleses no mapa rapidamente. A última década foi um divisor de águas para a produção de espumantes de alta qualidade e até de vinhos tintos que já estão dando o que falar. Conversando com Luma Monteiro, brasileira que vive na Inglaterra há quase 10 anos e hoje responsável pelo marketing de um dos Merchants de vinhos mais tradicionais do país, Davy’s Wine, deu pra ter uma ideia melhor do tipo de mudanças que estão acontecendo.

 

“Os espumantes ingleses devem ser considerados como fortes competidores no mundo do vinho. Já faz algum tempo que investimentos de casas de Champagne em Sussex, no sul da Inglaterra, começaram, principalmente porque elas têm o mesmo solo calcário da região francesa. Grandes casas como Pommery agora produzem espumantes ingleses, como o rótulo de Sussex Louis Pommery England. E os vinhos têm evoluído para melhor, com produtores agora compreendendo melhor o terroir e até mesmo alguns, como o Exton Park, criando a reserva perpétua, uma coleção de vintages guardados no método solera, para trazer complexidade aos vinhos, no mesmo formato que Champagne vem fazendo por séculos”, explica Luma, notando que a presença de casas históricas champenoises no país é sintomática de quão promissora é a produção ali. E ela diz ainda o que se espera para os próximos tempos: 

Os produtores também começaram a criar um branding no mesmo formato que Champagne, com edições limitadas e cuvées de prestígio, como os produtores premium Gusbourne e Nyetimber. Eu começaria agora a procurar e guardar os espumantes de topo da Inglaterra. Os vinhos tranquilos também têm evoluído muito, com Pinot Noir sendo a uva tinta que pode ser a aposta de produtores, e a uva híbrida branca Bacchus, um cruzamento de Silvaner/Riesling com Muller-Thurgau, que promete ser o carro-chefe da Inglaterra”, a especialista em marketing adianta.

Não poderia deixar de concordar com a Luma. Tive a oportunidade recente de ficar uma semana imersa em vinhos ingleses na Bolney Estate, a uma hora e meia de distância do centro de Londres. Na Bolney, não só tive a certeza do caminho de altíssima qualidade que os espumantes vêm trilhando, como também me impressionei com a qualidade do Pinot Noir. A verdade é que os desafios vitivinícolas da Inglaterra nem eles ainda sabem. Cara Lee, enóloga da Bolney, disse que todo ano é um problema, uma novidade ou uma boa notícia diferente. Anos que eles achavam que ia ser desastroso acabaram como uma grande surpresa. A safra de 2023, por exemplo, foi um espanto em termos de rendimento. Tanto a Bolney Estate quanto a Ridgeview ficaram chocadas com a quantidade de uvas de boa qualidade.

 

Do mundo para a ilha, da ilha para o mundo

Vocês devem imaginar que, se os ingleses sempre foram os reis da influência dos estilos de vinhos que consumimos no mundo, não vai demorar muito para começarmos a beber bolhas inglesas. A rede de supermercados Angeloni começou a divulgação desse estilo importando a Gusbourne, que na rede custa R$ 499,90. Se já estamos vendo “English Sparkling wine” no Brasil, também podem imaginar que muitos pubs ingleses abraçaram a ideia e, onde era comum ter apenas taças de Champagne, hoje os os espumantes ingleses competem nas listas de vinhos de igual para igual.

E vocês já sabem que; onde há mudança, estou sempre de olho. Mal posso esperar para acompanhar com vocês para onde vão os vinhos ingleses no mundo e o que acontecerá com o maior hub de importação de vinhos. Será a Inglaterra uma França ou uma Itália no futuro? Será um país onde o consumo doméstico será majoritariamente do seu próprio vinho? Veremos juntos as cenas dos próximos capítulos.

Assinatura Karene Vilela Vinhos Única

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