mudanças no consumo de vinho

Mudanças no consumo de vinho

“No meu tempo as coisas eram bem diferentes…”

Se você já disse que em seu tempo as coisas eram bem diferentes, adeus ao seu tempo de juventude; agora você está oficialmente apto a reclamar de tudo que está por vir e a se juntar ao meu time de rabugices. O hábito de consumir vinhos, como tudo na vida, tem mudado exponencialmente nos últimos anos, e essas mudanças fazem com que o vinho que você costumava beber ontem não seja mais o mesmo de hoje. Para aqueles que me seguem por aqui, sabem que sou uma fã incansável de antropologia, e no final do dia, tudo se resume à cultura e às formas como nós, seres humanos, nos relacionamos. Hoje, quero explorar as mudanças-chave nas preferências dos apreciadores de vinho nos últimos anos e como algumas regiões vinícolas se adaptaram ou estão se adaptando com sucesso a essas transformações. Se as coisas estão diferentes ou não, está na hora de explorarmos.

Da Doçura para a Secura

Uma das mudanças mais evidentes é a transição das preferências dos consumidores de vinhos doces para secos. Já sabemos que algumas culturas, como a dos americanos e dos brasileiros, possuem um paladar mais doce do que os europeus, mas definitivamente, o que tenho visto é que o mundo está se orientando cada vez mais para vinhos menos doces e mais secos. A região do Douro, reconhecida por seus Vinhos do Porto, passou por uma reconfiguração significativa em seu portfólio nas últimas décadas. Em 2008, a região produzia 32 milhões de litros de Vinho Douro DOC – os vinhos secos da região, mas hoje, em 2022, esse número explodiu para aproximadamente 56 milhões de litros. Além disso, o lendário Vinho doce do Porto reduziu, no mesmo período, sua produção de 87 milhões de litros para 80 milhões de litros em 2022, evidenciando uma adaptação sólida às preferências por vinhos mais secos da população global.

A icônica região de Champagne, por sua vez, testemunhou um aumento de 9,1% nas exportações em 2017, segundo dados do Comitê Champagne. No entanto, o crescimento mais exponencial foi observado nos vinhos Extra Brut e Brut Nature, os estilos mais secos de Champagne, que aumentaram impressionantes 35,4% em volume. Isso reflete a crescente preferência por vinhos secos. E, pasmem, os Estados Unidos se destacaram como um mercado-chave para esse crescimento, mesmo sendo o velho conhecido dos amantes de vinhos com maior teor de açúcar residual.

extra brut champagne

Vinhos com Menos Álcool

Para vocês que já leram minha coluna aqui na Única sobre vinhos com menos ou nenhum álcool já sabem que esse é o maior buchicho da indústria nos últimos anos. Esse movimento é global, e a conscientização sobre a saúde tem sido um fator decisivo na busca por essas alternativas. Uma pesquisa realizada pela YouGov/Portman Group em janeiro de 2019 revelou que um quarto dos adultos no Reino Unido deseja reduzir o consumo de álcool. Como resultado, lojas de vinho e supermercados têm respondido com a introdução de novas marcas de vinho ou versões de vinhos tradicionais que oferecem teor alcoólico reduzido, menos calorias e menos carboidratos.

Parece óbvio que para responder a essa tendência o correto é criar um vinho com menos álcool e pronto, mas poucos se perguntam o que aconteceria com regiões que só produzem vinhos fortificados, por exemplo?

A resposta veio da região de Jerez de la Frontera, que enfrentou essa tendência de maneira inovadora, surpreendendo também os fãs de Jerez. A região autorizou recentemente a produção de vinhos não fortificados dentro da Denominação de Origem. Isso resultou em vinhos secos com 13% de álcool, atendendo às preferências por teores alcoólicos mais baixos em comparação com os tradicionais 15% ou mais da região.

Menos Carvalho, Mais Fruta

Outra transformação importante que tem moldado a indústria vinícola nos últimos anos é a preferência por vinhos mais frutados em detrimento dos estilos envelhecidos em carvalho. A famosa “Era Parker”, na qual Robert Parker concedia altas notas a vinhos com muita madeira, parece estar definitivamente chegando ao fim. As gerações mais jovens buscam vinhos que expressem de forma mais clara as características das uvas. A Argentina, conhecida por seu Malbec, tem respondido a essa tendência de maneira sutil, porém extremamente inteligente.

O famoso Catena Alta Malbec, um vinho da vinícola Catena Zapata, costumava utilizar barris novos e pequenos para envelhecer seus vinhos, chegando a usar até 70% de carvalho novo. Hoje em dia, esse número caiu para menos de 40%. Além disso, em algumas safras, houve uma transição para barris de maior capacidade, resultando em vinhos com menos influência do carvalho. Não só a Catena Zapata, como centenas de produtores da Argentina já falam em menos madeira e mais fruta. 

Mais Borbulhas por favor

Ainda pensando em mudanças de comportamento, temos a crescente afinidade por vinhos espumantes. Uma pesquisa conduzida pela Wine Intelligence revelou que entre 2019 e 2022, o número de americanos que apreciam vinho espumante aumentou em 30%. Não apenas mais pessoas estão bebendo vinho espumante, mas também o estão fazendo com mais frequência, com o número de consumidores mensais de vinho espumante subindo de 56% há três anos para 72% em 2022. Quase um quarto dos entrevistados relataram beber vinho espumante pelo menos duas vezes por semana. Esse entusiasmo tem sido alimentado por uma mudança nas atitudes em relação ao vinho espumante, que não é mais exclusivamente associado a eventos formais e de celebração como eram no passado, mas sim a momentos mais descontraídos e frequentes.

Quem respondeu de forma interessante a essa tendência foi a região de Rioja, conhecida por seus vinhos tintos de qualidade, que se adaptou, aprovando a produção de seu primeiro vinho espumante dentro da Denominação Rioja DO.

Esse é mais um exemplo de mudança nas regulamentações das denominações de origem que refletem a necessidade de se adaptar às preferências dos consumidores, neste caso, por vinhos borbulhantes.

Sou Orgânico

É inegável que o mercado de alimentos orgânicos é a bola da vez. A crescente conscientização em relação à saúde, especialmente em um período pós-pandêmico, a crescente preocupação com a sustentabilidade ambiental e a busca por produtos de alta qualidade têm contribuído para um aumento na demanda por produtos orgânicos em todas as categorias. Além disso, a crescente disponibilidade de canais de distribuição, como o comércio eletrônico, a educação do consumidor através da internet e a inovação na indústria estão desempenhando um papel significativo nesse crescimento. O mercado, que atingiu o valor estimado de USD 208,19 bilhões em 2022, prevê uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 11,7% de 2023 a 2030, o que reflete a forte preferência dos consumidores por alimentos orgânicos em todo o mundo.

Em algumas regiões do mundo, ser orgânico é uma obrigação moral atualmente, afinal, o clima ajuda e não faz sentido não ser. A Toscana, o sul da França e o sul da Espanha são bons exemplos de regiões que podem adotar a agricultura orgânica com mais facilidade em comparação com regiões com clima marítimo. Recentemente, um movimento interessante na indústria é a criação de subcategorias por algumas Denominações de Origem (DOs) que se aplicam apenas a produtores orgânicos. A DO Penedès, por exemplo, possui uma subcategoria chamada Clàssic Penedès, que exige que todas as uvas sejam cultivadas de forma orgânica. Também na Espanha, alguns produtores de Cava de altíssima qualidade criaram uma associação chamada CORPINNAT. A ideia desses produtores era estabelecer regras mais rigorosas na produção de seus cavas e promovê-los pela sua alta qualidade. A premissa básica e indiscutível é que todas as uvas devem ser cultivadas de forma orgânica.
Não tenho dúvidas que em breve muitas outras regiões vínicas do mundo vão empurrar esse movimento e muitas legislações serão revisadas. 

Se você chegou até aqui sem reclamar das mudanças, é um sobrevivente como eu. É comum encontrar pessoas na indústria do vinho advogando que a tradição fala mais alto e que, por mais que o mundo mude, o vinho nunca muda. Eu conto ou vocês contam?

Pois é, a indústria do vinho demonstra uma notável capacidade de se ajustar às mudanças nas preferências dos consumidores e continua em sua versão beta todos os dias. À medida que mudamos, podemos contar com as regiões vinícolas para nos surpreenderem com sua habilidade de se reinventar e atender às nossas exigências em constante evolução. Essas adaptações destacam a indústria como dinâmica e pronta para satisfazer a única coisa permanente que conhecemos: a mudança! As coisas no seu tempo serão bem diferentes. Acostume-se!

Assinatura Karene Vilela Vinhos Única

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