Mulheres e o mundo do vinho por Keli Bergamo

Os muitos poréns de uma mulher no mundo dos vinhos

Em menos de 60 dias ouvi de duas pessoas – um homem e uma mulher, em cidades e eventos diferentes – a mesma frase: “É perceptível o quanto você precisa se impor ao falar aos grupos masculinos”. Revirei mentalmente essas falas por algumas semanas em minha cabeça e senti que aqui era o local ideal para falarmos sobre o assunto. Creio que a necessidade de uma postura mais firme acontece de forma quase irracional, motivada por episódios anteriores em que alguns comentários já exigiram de mim respostas enérgicas.

Vou contar dois “causos”.

Há muito tempo, quando eu ainda ensaiava na vida profissional no mundo dos vinhos, fui convidada a um evento direcionado a sommeliers de uma grande importadora. Compareci e estava lá, bem feliz e contente com meu caderninho, anotando todas as minhas impressões. Em determinado momento um conhecido sommelier me perguntou: “O que você está fazendo aqui se o evento é para profissionais?” Respondi que havia sido convidada (o óbvio), e ele se retirou. Logo depois voltou com uma turminha (5ª série não morreu) e com um branco na taça. Me chamou e perguntou o que eu achava daquele Chardonnay. Eu, de imediato, disse que me parecia mais um Viognier. Ele, constrangido, comentou com os coleguinhas: É, ela sabe mesmo…

Aparentemente não fiquei abalada, mas essa história nunca se apagou da minha mente.

Keli Bergamo em uma degustação de vinhos

Em outra situação, entrei com uma amiga em uma loja de vinhos e pedi por uma determinada categoria. O proprietário, um senhor com estilo conservador, tentou me dissuadir sobre tais vinhos dizendo: “Acho que você vai gostar mais desses docinhos”.  Há pouco tempo voltei neste estabelecimento e um dos atendentes se lembrou disso, porque me conhece e me acompanha nas redes sociais. Disse que até hoje se constrange ao lembrar da abordagem (confesso que eu também). Como reagi? Não comprei nada na loja, mas também não fiz textão. Fui absorvendo a situação.

Agora, anos depois desses dois fatos – e de muitas outras situações, que vão de cantadas a piadinhas de mal gosto e muito mais – creio que sou capaz de encarar de frente esses desafios, esses comportamentos machistas (que partem de mulheres também) e seguir meu caminho.

Não criei uma carranca para ser assim. Continuo sendo feminina, descontraída e falando do Corinthians, e mesmo assim sendo profissional. E mesmo assim sendo eu. E esse “eu” trabalha pra caramba e tem ainda muita coisa para construir e vai continuar se impondo diariamente para mostrar que não chegou à frente daquele público à toa.

Por fim, a sociedade não vai mudar tão rápido, mas nós podemos sedimentar uma geração de mulheres respeitadas no mundo dos vinhos sem perder o bom humor, a feminilidade, sem textão e sem vitimismo. Simplesmente porque somos muito boas no que fazemos.

Até o próximo mês! Você também pode me acompanhar nas redes sociais, clicando aqui.

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