A safra 2023 na França

Eu fiquei desesperado! Agora estou aliviado.

O potencial da safra 2023 na França

O título desse artigo atiçou a sua curiosidade? Convido vocês a uma leitura sobre a realidade da rotina de produtores de vinhos franceses.

Não me cancelem por favor, mas precisamos falar sobre os problemas climáticos. Vocês já pararam para pensar que o aquecimento global influencia até na produção dos vinhos que chegam às suas taças? Sim, os tempos mudaram, o clima mudou e, consequentemente, o vinho também! O ano de 2023 já é o mais quente da história e se as curvas de temperatura seguirem na mesma direção, vai ser o ano mais frio também! 

Vem comigo que vamos falar sobre isso e muito mais!

Esse ano a França foi o maior país produtor de vinhos, à frente da Itália e Espanha. Esses países sofrem com as mesmas problemáticas mas, muitas vezes, de forma mais severa. Se fizermos uma síntese podemos dizer que 2023 foi um ano intenso em problemas climáticos. O ciclo anual vegetativo da videira esteve atrasado, sofrendo com extremos como a seca e o excesso de chuva, além de geadas e altas temperaturas, tudo em um curto lapso de tempo. É uma safra qualitativa mas está longe de ser quantitativa.

Verdade seja dita, não importa a prática de cultivo escolhida, todos os produtores estão sendo afetados por esses episódios, que nos últimos dez anos se agravaram, fazendo com que, atualmente, estejam colhendo frutos muitas vezes indesejados.

Safra 2023 – um giro pelas regiões francesas mais conhecidas

Meu primeiro exemplo vem de um produtor da AOC Chinon, pequena região localizada no Vale do Loire. Em 2016, nessa mesma localidade, eles tiveram uma significativa perda de 80% da produção. Já em 2018, ao contrário, presenciaram uma das melhores safras de suas vidas, tanto em qualidade como em volume. Três anos depois, em 2021, voltaram às origens, com vinhos típicos da região (frescos e frutados) e agora, em 2023, sofreram com chuva tardia aliada a altíssimas temperaturas (conhecida como canicule), restando doenças ao vinhedo mesmo após todos os tratamentos que a cultura biodinâmica permite.

Ainda na região da Loire, Fabien Brutout, produtor de vinhos da AOC Vouvray tem a percepção de que o trabalho realizado no solo, há anos, está começando a dar frutos. Ele apresentará vinhos secos e espumantes bem equilibrados mesmo após uma perda de cerca de 15% do volume, ainda que com as fortes chuvas do mês de agosto.

Já na região da Borgonha, teremos uma safra que se destaca pelo volume, maturidade impecável e vinificação promissoras! Vai ser um “caviar” pois, aparentemente, a cepa Pinot Noir tem se adaptado bem às altas temperaturas.

A região de Champagne, que esperava uma safra excelente até o mês de agosto, teve que se dedicar ao processo de seleção dos cachos, após um mês chuvoso seguido de um setembro de altas temperaturas, culminando na podridão ácida de algumas uvas.

Já a Alsácia foi poupada das chuvas (até pela sua barreira natural a Vosges Mountains).  Por lá, os produtores contam com um volume maior que o estimado mesmo após um processo rigoroso de seleção do início ao fim da vindima. Eles almejam, em um futuro próximo, uma produção de tintos no mesmo nível dos vinhos da Borgonha.

Os crus do Beaujolais devem ter um potencial alcoólico baixo (entre 12.5% e 13.5%) e devem contar com um potencial de guarda entre cinco e dez anos, a ser definido após o amadurecimento. Xavier Thivolle, jovem viticultor da região, se diz otimista para com o futuro, mas diz que o clima tem que contribuir para poder manter o frescor dos vinhos, principalmente das parcelas situadas em altitude. 

Na região do Rhône, constatou-se uma perda entre 10% e 15% da produção, principalmente para a AOC Crozes-Hermitage. Jérôme Buffière diz ter visto seu trabalho de um ano ser destruído em três minutos após a passagem de um tornado em dois terços de suas parcelas. Apesar disso, ele afirma que a safra 2023 é qualitativa!

A região da Savoie também sofreu com as fortes chuvas de granizo, principalmente no dia 24 de julho com duas fortes pancadas. Esse fenômeno significou uma perda importante da produção, impactando em suas relações comerciais, já que mais uma vez a região produzirá um volume menor que a demanda do mercado.

Os produtores do Sudoeste sofreram com a presença de mofo no vinhedo. A perda é tão relevante que as seguradoras não querem assumir os contratos e a região está arquitetando a criação de um fundo de solidariedade entre os vinhedos, prevendo uma arrecadação de 20 milhões de euros. Essa quantia ajudaria os vinhedos afetados por problemas climáticos e comerciais.

Marc Leseney, viticultor na região de Limoux, disse que esperava uma grande quantidade de chuva, mas quando a mesma chegou a 200mm viveu algo jamais visto em seus quarenta anos como produtor. Ele ficou desesperado! Mas, como diz o ditado, depois da tempestade vem a bonanza. O clima melhorou até a vindima e as uvas foram colhidas saudáveis e com uma bela maturidade. Ele espera por vinhos frutados e prontos para serem degustados.

Mesmo com algumas informações desencontradas não poderia deixar de citar a região de Bordeaux. A Maison Dubecq, grande nome na venda de primeurs da região, anunciou que os brancos bordaleses serão aromáticos, bem equilibrados e frutados, próximo ao perfil da safra 2022. Com relação aos vinhos tintos, o otimismo evoluiu com o passar dos meses, pois até fim de julho eles estavam bem preocupados com a lentidão da maturidade e o avanço do mofo no vinhedo. Agosto chegou com temperaturas mais altas e uma seca importante, e setembro fechou com chave de ouro com temperaturas altas e duas pancadas de chuva que ajudaram a inchar os bagos de uva, proporcionando um bom volume de produção para alguns. Essa condição climática é mais favorável as cepas Cabernets (Franc e Sauvignon) que a Merlot. O ano de 2023 prevê igualmente uma bela produção de vinhos licorosos para a região, já que a podridão nobre se desenvolveu lentamente mas de forma harmoniosa nas parcelas, onde a colheita foi feita em diversas etapas para chegarmos a um vinho dentro das características desejadas.

Para além da crise climática

E se falarmos de outros problemas cada dia mais presentes na vida dos produtores? Como, por exemplo, a falta de mão de obra (até mesmo desqualificada), principalmente no período da vindima? 

Em geral, o trabalho não é muito apreciado pelos franceses e os produtores acabam ficando sem muitas opções e optam por ou contratar estrangeiros – o que pode ocasionar problemas de comunicação na equipe – ou seguem, se permitido, com a colheita mecânica, ao menos nas parcelas mais acessíveis. 

Essa situação não deve melhorar nos anos que virão, já que 2023 foi marcado por um alto número de mortes na França durante a fase da colheita e vinificação. Seja pelo excesso de calor, desidratação ou por acidentes nas adegas durante a fermentação alcoólica. A vindima não tem o mesmo encanto que antigamente.

Ademais, é impossível não considerar a explosão dos preços dos materiais secos, como o aumento nos custos de energia e transporte, o janeiro seco, entre outros. 

Você deve estar se perguntando, por que falar desses temas se o assunto é o potencial da safra?

Porque já entendemos que, mesmo com todos os contratempos enfrentados, os viticultores são profissionais apaixonados por seu negócio e se dedicam integralmente a ele! A safra de 2023 tem um excelente potencial, mas não muito volume. 

Alguns produtores conseguiram equilibrar os estoques graças a 2022, mas infelizmente, outros não. A consequência é a raridade da safra em questão e o aumento dos preços de venda ao consumidor final. Logo, se você tiver a oportunidade de degustar essa safra eu recomendo! Os primeurs já estão no mercado, como o famoso Beaujolais Nouveau e ele cumpre com excelência a proposta de um vinho frutado, leve e fácil de degustar.

FONTE – Produtores e VITISPHERE

Camila Vendramini é especialista em vinhos franceses pelo Lycée d’Amboise e mora no Vale do Loire desde 2019. Turismóloga de formação com um MBA em marketing, ela atua como gestora de projetos em uma empresa francesa de software de gestão comercial para vinícolas.

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