O vinho brasileiro e um pouquinho de todos nós

O vinho brasileiro e um pouquinho de todos nós

Trabalhar com vinhos é algo deliciosamente desafiador. 

Ao mesmo tempo que trabalhamos com algo histórico, trabalhamos também com um dos produtos mais dinâmicos e sujeitos às tendências comportamentais do mundo.

Por exemplo, imagine vender uma máquina de lavar roupas (te amo, máquina de lavar roupas!). Aqui falamos puramente, e somente, sobre descrever suas funções e preço do produto. 

Vender vinhos, por sua vez, é contar história, geografia, clima, pessoas, pontuações, gastronomia e muito mais em uma garrafa. O preço, em alguns momentos, fica em segundo plano.

Porém, trabalhar vendendo ou comunicando os vinhos brasileiros é algo ainda mais desafiador. Como  todo mundo aqui sabe, o brasileiro ainda carrega em si o velho complexo de vira-lata. Isso quer dizer que esse complexo faz tudo o que é de fora parecer infinitamente melhor se comparado com aquilo que é produzido aqui.

Sem entrar no mérito de tradições, climas e tudo mais, a verdade é que o Brasil FAZ MUITO COM O POUCO.

Mas pera aí, querida. Você lá tem poder de fala (sempre quis usar essa expressão aqui) para falar de vinho brasileiro? Você, que é contratada de nosso maior concorrente, o vinho chileno? 

Pois é, amigos. Tenho lugar de fala sim e, ao contrário do que uma galerinha diz por aí, dá pra amar e trabalhar em todos os nichos. O segredo é ser PROFISSIONAL. E eu, como tal, além de prestar e já ter prestado consultorias para vinícolas e distribuidores de vinhos do Brasil, também atuo como embaixadora de marca da Sacramentos Vinifer. Trata-se de uma empresa genuinamente brasileira, com sede na Serra da Canastra, em Minas Gerais, que desvenda os terroirs também de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.

O inimigo mora ao lado?

Então é isso. Agora deixe-me falar.

Nos tempos de pandemia e quarentena, cresceu muito o consumo e interesse pelos vinhos do Brasil. Na verdade, não foi um fenômeno exclusivamente com os vinhos. Ganhou força um movimento de consumo local, em vários setores, e o vinho acompanhou essa tendência. Foi lindo e muito importante para o setor, especialmente porque, ao mesmo tempo, as fronteiras fechadas proporcionaram uma diminuição de entradas ilegais. Aliás, já pararam pra pensar que o inimigo do vinho brasileiro não é o vinho importado, mas sim o vinho importado sem impostos?

Sim, caro amiguinho do contatinho. Todo preconceituoso que repete o tal: mas vinho brasileiro é muito caro, o faz estabelecendo um paralelo imediato com o vinho sem imposto.

É que vinho importado de maneira legal também é caro. E, aqui, a gente entra num outro ponto importante e que talvez cause surpresa aos desavisados: tudo no Brasil é caro, meu bem! 

E nesse mar de produtos caros, que não cabem no orçamento de grande parte da população brasileira, tradições e fama falam mais alto e muitos optam por vinhos importados de baixa qualidade em detrimento de vinhos brasileiros de maior qualidade.

A culpa é dos importados? Não. A culpa é do governo? Também, mas a culpa é, em parte, da gente, que, podendo fazer mais, muitas vezes se cala.

Eu me orgulho de falar por onde ando sobre os bons vinhos brasileiros que conheço, me orgulho em referenciar nossos espumantes e falar de projetos que enobrecem nossa capacidade e resiliência. E, na maioria das vezes, faço porque quero mesmo, sem ninguém me pagar.

Fico impressionada ao ver muitos profissionais de vinhos simplesmente alheios ao que se passa no Brasil e, tendo oportunidade de exaltar um pouco desse muito que fazemos, preferem deixar pra lá. 

Esses dias a Suzana Barelli, referência em jornalismo de vinhos em nosso país, mostrou porque merece ser chamada assim. Em uma degustação de grandes vinhos italianos de Angelo Gaja, que contou com a presença de inúmeras pessoas do mercado, Suzana mencionou a nossa colheita de inverno ao Sr. Angelo, que, imediatamente, se interessou. (Como disse e repito, o inimigo não mora ao lado.)

Suzana, mais do que depressa, falou com produtores que utilizam dessa técnica, que é amplamente usada no Brasil, e os convidou a enviar seus vinhos para que o Sr. Gaja pudesse degustá-los. Um desses rótulos foi o Sabina, o Syrah da Sacramentos. Na coluna dela tem todos os detalhes.

E porque ela fez isso? Porque ela sabe que o pouco para o vinho brasileiro representa muito. Qualquer novo espaço, qualquer opinião – positiva ou não – que possamos ter de gente referenciada no mercado vale ouro.

Há algum tempo o mesmo Sabina foi para uma degustação de lançamento do Romanée-Conti em Paris, graças ao Roberto Souza Leão, que tendo a oportunidade de levar algo de nosso país para degustar, dentre grandes nomes do mundo dos vinhos, não fez a egípcia. Ele contou essa experiência nesse episódio do podcast Confra do Filhos

Vale mencionar que nenhum deles ganhou nada das vinícolas com isso (vocês, Suzana e Roberto, ganharam ainda mais minha admiração, viu?!). Mas, tal qual deveríamos fazer mais vezes, eles nos lembraram que temos muito a contar por aqui e que, sim, nossas dificuldades, nossa falta de apoio, nosso desprivilegiado sistema tributário e nossa moeda desvalorizada não são capazes de nos paralisar.

Cada vez que um novo consumidor é impactado por uma informação diferente sobre nossos vinhos, damos um pequeno novo passo rumo à seriedade do mercado e educação que tanto facilita seu crescimento.

E por isso eu agora pergunto: O vinho brasileiro pode também contar um pouquinho com você?

Até a próxima coluna!

Assinatura Keli Bergamo Vinhos Única

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