Panorama da produção de vinhos no Brasil

A primavera dos vinhos de inverno no Brasil

Você sabia que o Brasil produz vinhos finos de ótima qualidade? Provavelmente sim. Afinal, essa ideia pré-concebida de que não há vinho brasileiro bom já caiu por terra há algum tempo. Porém, logo associamos esses vinhos aos grandes produtores do sul do Brasil, como os da Serra Gaúcha, Campanha e outros lugares do estado do Rio Grande do Sul.

É preciso saber que a vitivinicultura vem se expandindo em uma velocidade assombrosa Brasil afora. E, graças a uma técnica adaptada de outras plantas frutíferas por um genial engenheiro agrônomo de Minas Gerais, agora temos a possibilidade de obter vinhos finos de ótima qualidade em outros lugares do país. Já contaremos essa história.

Você provavelmente também já ouviu falar dos vinhos tropicais do Sertão Nordestino, mais especificamente do Vale do São Francisco, na região da divisa entre os estados da Bahia e Pernambuco, cidades de Petrolina e Juazeiro. Desde a década de 1980 é produzida uva (e vinho) na região, mas essa é uma história pra  outro dia.

Vale do Rio São Francisco. Foto: Marco Antônio Sá

Vale do Rio São Francisco Marco Antônio Sá

Agora vamos falar de estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Alagoas (!), Mato Grosso (!!) e Goiás (!!!), que sim, produzem vinho fino de qualidade. Pois é, é capaz de você ser vizinho de uma vinícola e não saber disso até agora. Inclusive, podemos dizer que tivemos vinho por essas bandas acima do Trópico de Capricórnio desde a época do Brasil Colônia, só que nunca houve muito foco na região por uma série de razões (terroir inadequado, proibição da coroa portuguesa para reserva de mercado etc).

Por isso é verdade que sempre tivemos vinho de uva americana no sudeste, e que as tentativas nesse ínterim de plantar as viníferas foram frustradas. Agora, finalmente, uma série de corajosos empreendedores estão investindo em vinhedos, em cantinas com tecnologia e também no desenho de uma nova rota de enoturismo na região sudeste, grande centro consumidor de vinhos no Brasil. Mas Pablo, você tem certeza de que o vinho é bom? O que eu digo é: experimenta. É bom sim, e vai te surpreender. Porque além do vinho, certamente você vai ouvir muita história dele. E isso é uma parte muito importante do nosso ritual de beber vinho, de compartilhar.

Vinhos de Inverno, uma inovação nossa

Mas voltemos aos vinhos do sudeste, ou vinhos de inverno. Inverno? Sim, pois enquanto as vinhas estão dormindo bem quietinhas e comportadas lá pelo sul do Brasil depois de terem trabalhado por boa parte do ano, em muitos lugares do sudeste elas estão no pico de seu ciclo, entrando na fase de maturação e quase prontas para serem colhidas e processadas para virar vinho.

E é agora que falamos sobre aquele engenheiro brilhante de Minas Gerais, Murillo de Albuquerque Regina, que fez seu doutorado e pós-doc na Universidade de Bordeaux, na França, e desenvolveu sua tese adaptando uma técnica de manejo de poda de outras frutas para as uvas viníferas. E como ele bolou isso? Como bom mineiro, ele conta o seguinte: “Eu olhava pra aquele lugar (Bordeaux) e pensava, uai, mas esse trem aqui é parecido com Minas! E nas melhores regiões produtivas do mundo o clima antes da colheita é de dias ensolarados e noites frias, com solo seco. É assim em Minas em maio, junho e julho. Quem sabe enganando o ciclo da planta eu consigo obter uma boa uva para vinho?”

E é isso: essa técnica engenhosa de uma poda a mais na videira, feita geralmente em janeiro, no pico do verão, “engana” nossa querida plantinha, fazendo com que ela interrompa seu ciclo normal e entre em dormência, desviando assim seu ciclo produtivo para uma estação mais favorável nessas bandas do Brasil: o inverno. Diferentemente dos países do hemisfério norte e de nossos vizinhos do sul, em geral tanto nosso verão quanto nosso outono são desfavoráveis climaticamente para o plantio de viníferas pelo excesso de chuvas, fazendo com que o manejo dos vinhedos se torne mais difícil e custoso. Com o advento da poda dupla, todo o ciclo da planta cai numa época com menos chuvas, com mais dias ensolarados e ótima amplitude térmica (diferença de temperatura entre dia e noite). Esses fatores, aliados à altitude dos planaltos do sudeste, ajuda a que se consiga uma maturação ótima e com sanidade das uvas, perfeita para a produção de vinhos de qualidade.

E assim se cria uma fronteira de produção de vinhos no Brasil. E isso é ótimo para nós, enófilos. Algo impensável até pouco tempo atrás, enfim temos vinhos finos de uva vinífera sendo produzidos em estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Alagoas, Goiás, Distrito Federal e até no Mato Grosso. O céu é o limite.

Como são os vinhos de inverno?

Tudo isso é muito novo, começou há menos de 20 anos, por isso enólogos e produtores ainda estão experimentando. Não sabemos muito bem sobre várias coisas, como por exemplo, quais as melhores castas para utilizar nesses terroirs (que têm grandes diferenças entre si, diga-se). O que se sabe é que a técnica da dupla poda afeta a produtividade e o vigor dos vinhedos, e por essa razão a variedade precisa ser “forte” o suficiente para conseguir ser produtiva comercialmente. Por isso, a Syrah tem sido largamente utilizada porque é uma variedade bastante resistente. Pelo mesmo motivo, a Sauvignon Blanc tem sido a casta branca que melhor se adaptou a essa técnica, com resultados consistentemente bons. Também vale citar a Cabernet Franc e a Viognier, que têm sido usadas por vários produtores. Mas ainda há um mundo de varietais a serem testados, e pode ser que daqui a cinco ou dez anos a “casta emblemática” seja outra. Só o futuro dirá.

Em termos gerais, os vinhos são normalmente mais concentrados, ricos, de cor mais profunda do que os vinhos tintos da colheita de verão. Eles também têm maior potencial de envelhecimento e uma afinidade maior com o carvalho.

Falando em Syrah, alguns vinhos dessa casta se destacaram recentemente em concursos, como o Guaspari Syrah Vista do Chá, de Espírito Santo do Pinhal/SP, e também o Sacramentos Sabina Syrah, produzido com uvas da Serra da Canastra em Minas Gerais, a qual é conhecida por seus maravilhosos queijos.

Algumas recomendações

Aliás, em uma nota adicional, em Agosto de 2022 estive em uma feira exclusivamente de vinhos nacionais, a ViniBraExpo, no Rio de Janeiro, organizada pelos entusiastas Gustavo Pacheco e Marcelo Ideses. Essa feira contou com mais de 50 produtores de todo o Brasil e eu tive a oportunidade de provar rótulos de vários lugares, podendo dar destaque aos seguintes vinhos de dupla poda: o lindo e frutado Syrah Rafael 2021 da Vinícola Inconfidência, de Paraíba do Sul/RJ e também o Terroir Barbera 2018 da Pireneus, de Cocalzinho de Goiás/GO. E vale registrar que também havia muita coisa legal de outros lugares não tão tradicionais do Rio Grande do Sul, como Santa Maria/RS (Velho Amâncio) e Crissiumal/RS (Vinícola Weber). As novidades não param de aparecer nesse Brasil de Vinhos!

Concluo este texto com duas sugestões para o leitor: se você tiver planos para um escape no fim de semana, veja se você não mora perto de uma vinícola e vá visitá-la. Se não der pra fazer esse escape, viaje na taça em casa mesmo e tente experimentar um vinho brasileiro nas próximas semanas. Pra isso faço uma lista (não extensiva) de produtores, por estado, para você experimentar.

Saúde!

Dicas:

LISTA DE VINÍCOLAS – NOVAS FRONTEIRAS DO VINHO BRASILEIRO:

SÃO PAULO (São Roque):

  • Vinícola Goes (@vinicolagoes)
  • Bella Quinta (@bellaquintavinhosfinos)

SÃO PAULO (Leste):

  • Casa Verrone (@casaverrone)
  • Guaspari (@vinicolaguaspari)
  • Terra Nossa (@vinicola_terranossa)
  • Innvernia (@innvernia)
  • Terrassos (@vinicolaterrassos)

SÃO PAULO (Mantiqueira Paulista):

  • Vinicola Ferreira (@vinicola.ferreira)
  • Villa Santa Maria (@vinicolavillasantamaria)
  • Raízes do Baú (@vinicolaraizesdobau)
  • Entre Vilas (@entrevilas)

MINAS GERAIS:

  • Villa Mosconi (@vinicolavillamosconi)
  • Casa Geraldo (@casageraldo)
  • Luiz Porto Vinhos Finos (@luizportovinhosfinos)
  • Vinícola ABN (@vinicola_abn)
  • Maria Maria (@vinhosmariamaria)
  • Barbara Eliodora (@vinicola.barbaraeliodora)
  • Stella Valentino (@vinicolastellavalentino)
  • Estrada Real (@vinicolaestradareal)
  • Quinta do Campo Alegre (@quintadocampoalegre)
  • Sacramentos Vinifer (@sacramentosvinifer)

RIO DE JANEIRO:

  • Inconfidência (@vinicolainconfidencia)
  • Tassinari (@vinicola.tassinari)
  • Eloy (@familia.eloy)
  • Fattoria Vinhas Altas (@fattoriavinhasaltas)
  • Terras Frias (@vinicolaterrasfrias)

ESPIRITO SANTO

  • Tabocas (@tabocasvindegarage)
  • Casa dos Espumantes (@casadosespumantes)
  • Cantina Matiello (@cantinamattiello)
  • Carrereth (@vinicolacarrereth)

BAHIA (Chapada Diamantina)

  • Vinícola Reconvexo (@vinicolareconvexo)
  • Vinícola Santa Maria (@vinicolasantamaria)
  • Vinícola Vaz (@vinicolavaz)
  • Vinhas do Morro (@vinhasdomorro)
  • Vinícola UVVA (@vinicolauvva)

PERNAMBUCO E ALAGOAS:

  • Vinícola Vale das Colinas (@valedascolinas)
  • Vinícola Serra da Mão (@vinicolaserradamao)

GOIÁS E DISTRITO FEDERAL

    • Pireneus  (@pireneusvinhosvinhedos)
    • Girassol (@vinhedo.girassol)
    • Serra das Galés (@serradasgales)
  • Vinícola Brasília (@vinicolabrasilia)

MATO GROSSO/MATO GROSSO DO SUL:

Locanda do Vale (Chapada dos Guimaraes) (@locandadovale)

Terroir Pantanal (MS) (@terroirpantanal)

Sites e perfis para acompanhar sobre vinhos e vinícolas brasileiras:

  • Rogério Dardeau (@rogeriodardeau)
  • Brasil de Vinhos (@brasildevinhos)
  • Vou de Vinho (@voudevinho)
  • Tommy Pretto (@altalitragem_tommypretto)
  • Marcelo Ogbeni (@vinsdubresil)
  • ViniBraexpo (@vinibraexpo)
Assinatura Única Pablo Fernandez

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