Reuso de garrafas de vinho é o futuro?

Reuso de garrafas de vinho: é o futuro?

As garrafas de vidro são peças fundamentais na indústria do vinho desde o século XVIII, quando os ingleses transformaram a produção de garrafas para uma escala industrial. Elas, hoje, são excelentes vedantes responsáveis por proteger a qualidade da bebida, evitando a entrada do oxigênio. As garrafas de vidro também agregaram ao vinho um valor estético e de marca, oferecendo uma imagem tradicional que faz com que muitos consumidores não migrem para outros tipos de envase (vinhos em lata, bag-in-box, garrafas pet, etc.). Seu formato, cor e design desempenham um papel importante na diferenciação e no marketing, capturando a atenção nas prateleiras e criando uma impressão duradoura para os consumidores. Por fim, o vidro é 100% reciclável e pode ser reciclado infinitamente sem perda de qualidade. No entanto, o uso do vidro na indústria está em constante discussão, uma vez que, apesar disso tudo, se tornou o grande vilão quando o assunto é sustentabilidade, ora por baixos índices globais de reciclagem, ora pelas altas taxas de emissão de CO₂. A pergunta que ecoa indústria afora é: será a garrafa do futuro uma garrafa reutilizável?

O nosso hábito de jogar garrafas de vidro fora é algo extremamente recente. Por gerações, a norma foi sempre reutilizar. Com o advento do plástico e a escala de produção de descartáveis no século XX, a cultura de descartar embalagens cresceu drasticamente mundo afora. Além disso, os avanços tecnológicos aceleraram a globalização, fazendo com que o consumo fosse cada vez menos local e cada vez mais global. Atualmente, a garrafa de vidro é responsável por 50% a 70% das emissões de CO₂ de uma vinícola, devido à quantidade de calor necessária na sua produção e às emissões durante o transporte. A reciclagem pode diminuir as emissões totais, mas o orçamento de CO₂ de uma garrafa feita de vidro reciclado ainda é muito alto, e grande parte da infraestrutura de reciclagem do mundo é extremamente disfuncional, deixando uma grande proporção de garrafas de vidro enterradas em aterros sanitários. Para que a indústria do vinho atinja emissões zero e continue a usar melhor este recipiente, a discussão proposta por muitos especialistas é a reutilização da garrafa.

Garrafas de vinho

Para nós brasileiros pode parecer algo estranho o que eu vou dizer agora, mas em 2020, os Estados Unidos importou 383 milhões de litros de vinho a granel, um aumento de 62% na última década, e a produção americana de vinho a granel representa 65% do volume de vinho exportado. No caso do Reino Unido, 50% do vinho que entra no país entra a granel.

Vinho a granel (bulk wine) é proibido no Brasil, portanto, não podemos transportar vinhos se já não estiver envasado.

No entanto, esse mercado é colossal globalmente e boa parte das redes de supermercado nessas origens (Tesco, Costco, Aldi), com marca própria, normalmente, importa vinhos a granel, diminuindo o peso no transporte e, consequentemente, emissões de CO₂. No entanto, depois que o vinho é vendido, boa parte dessas garrafas não recebe o mesmo tratamento que uma lata de alumínio receberia pela indústria de reciclagem. De acordo com uma pesquisa feita pela Aluminium Association, baseada em Virgínia nos Estados Unidos, a lata de alumínio continua sendo, de longe, a embalagem de bebida mais valiosa na lixeira, com um valor de US$ 991/ton em comparação com US$ 205/ton para o PET e US$ 23/ton para vidro, com base em uma média nos dois anos anteriores a fevereiro de 2021.

Nesse cenário do que fazer com as garrafas vendidas, o Porto Protocol – instituição sem fins lucrativos focada em mitigar mudanças climáticas dentro da indústria de vinhos – vem protagonizando inúmeras discussões sobre as garrafas reutilizáveis. Nesses fóruns de discussões um nome sempre se destaca: Muriel Chatel. Fundadora do Sustainable Wine Solutions, Muriel começou seu projeto vendendo vinho no Borough Market, um mercado de aberto de Londres, onde inicialmente entendeu que, vendendo vinhos em garrafas reutilizáveis, poderia ter a economia do custo da embalagem e a praticidade para o consumidor local que não precisaria se preocupar com a reciclagem. Ela comprava vinhos de alta qualidade em bag-in-box e depois revendia em garrafas de vidro que retornaria para ela após o consumo. Era um modelo extremamente inteligente do ponto de vista comercial também, porque muitas vezes o cliente fazia questão de retornar a garrafa pessoalmente para aproveitar para recomprar outro vinho. Anos depois, Muriel entendeu que isso fazia um imenso sentido para o on-trade Londrino, uma vez que bares e restaurantes vendem milhares de vinhos em taça e depois precisam se livrar das garrafas, que normalmente são vistas pelos consumidores. Em um bar na Inglaterra, dificilmente um atendente de um bar vai abrir uma garrafa na sua frente. Culturalmente as taças já saem cheias de trás do balcão. O negócio de Muriel cresceu atendendo a bares e restaurantes na região e hoje ela é referência na Inglaterra em embalagem zero e logística reversa.

Muitos de vocês já devem estar pensando que ter um projeto de garrafas reutilizáveis parece simples quando atuamos em um mercado de nicho, mas escalar isso é algo inimaginável hoje. Andrew Beamish, representante da vinícola e destilaria inglesa Maillard Point, também concorda. Apesar de todos os seus produtos serem 100% feitos com garrafas reutilizáveis e a logística reversa ser totalmente realizada, Andrew vê que projetos como esse só são possíveis porque as vendas ainda são muito localizadas e, para escalar, seria necessário o apoio do poder público. Bernard Grafé, CEO do Grafé Lecocq na Bélgica, concorda com Andrew. Bernard está à frente de um négociant extremamente tradicional em seu país, fundado por seus antepassados que desde sempre coletaram garrafas usadas. Hoje eles coletam entre 400 e 500 mil garrafas por ano e reutilizam com vinho a granel comprado de diversas regiões da França. Mesmo com negócios distintos, tanto Andrew quanto Bernard acreditam que apenas mudanças nas leis ou incentivos governamentais para essas práticas fariam garrafas reutilizáveis serem o futuro.

A Alemanha tomou a frente neste assunto, e lá já existe uma lei chamada “Einwegpfand” ou “Einwegpfandgesetz” (Lei de Depósito Descartável) que regula o sistema de depósito para garrafas de vidro e outros recipientes de bebidas. Essa lei foi criada para promover a reciclagem e o reuso e reduzir o desperdício. Segundo a lei, os consumidores pagam um pequeno depósito, conhecido como “Pfand”, ao comprar bebidas em garrafas ou latas de vidro descartáveis. O valor do depósito depende do tamanho da garrafa ou lata, normalmente variando de 0,08 a 0,25 euros. Quando o consumidor devolve a garrafa vazia a um ponto de coleta designado, como um supermercado ou uma máquina de venda automática, ele recebe o valor do depósito de volta. Hoje, a Alemanha é líder em reciclagem e reuso. Após essa lei, eles alcançaram uma taxa de retorno impressionante de 98,4%, tornando-a, sem dúvida, uma solução de gerenciamento de resíduos bem-sucedida. Não sabemos ao certo o quanto dessas garrafas de vidro são para reuso e quanto para reciclagem, mas o que podemos concordar é que decisões públicas são mandatórias para o futuro das garrafas de vidro. 

Chegamos ao ponto em que você deve estar se perguntando: e o custo de lavar essas garrafas, e as emissões de Co₂ de trazê-las de volta para indústria, e o espaço para separá-las (a energia gasta nesses locais)? Será toda a logística reversa e o reuso mesmo sustentável?  Grafé fez diversos estudos e chegou à conclusão de que uma garrafa reutilizada gasta 6g de Co₂ no processo da lavagem, enquanto uma garrafa de vidro reciclada gasta 650g de Co₂. O tempo da lavagem é em média 40 minutos (a 60º-80 °C), enquanto na reciclagem estamos falando de uma temperatura de 140 °C durante 24 horas. Bernard afirma que uma garrafa pode ser reutilizada de 7 a 9 vezes até começar a mostrar imperfeições para uso. De acordo com Marta Mendonça, diretora do Porto Protocol, a economia de uma garrafa reutilizável em emissões de carbono ainda é de 50% quando comparada com garrafas novas, mesmo se considerarmos todas as emissões extras de carbono no processo de logística reversa.

Para os ainda mais céticos, a questão que fica são os diferentes tipos de garrafas de vidro no mercado. Como as indústrias de vinho saberiam quais garrafas são as dos seus próprios vinhos? Um modelo padrão de garrafas para vinhos de consumo rápido já é uma discussão latente. Após a crise de abastecimento que a indústria viveu durante a pandemia e o momento vulnerável em que muitos produtores se viram na hora de comprar suas embalagens, muitos já consideram que o formato ou a cor da garrafa não devem importar tanto quanto o rótulo.

Muitos produtores de vinhos rosés se viram obrigados a usar garrafas verdes por falta de opção, e a lição ficou: a indústria de vinhos ainda é muito fragmentada e pouco relevante para os grandes produtores de vidro.

Os conglomerados de cerveja e destilados falaram e ainda falam mais alto. Nesse cenário, os mais otimistas da indústria do vinho, e posso me incluir nesse grupo, acreditam que uma garrafa padrão para a gama de entrada de vinhos que movimenta o maior volume de vendas pode colocar o vinho em pé de igualdade com outras categorias e, além disso, juntos podem economizar em compras de novas garrafas, uma vez que o processo de reutilização será cada vez mais simplificado.


Não existem dúvidas de que a indústria do vinho está enfrentando um dilema ambiental com o uso das tradicionais garrafas de vidro. Embora essas garrafas sejam extremamente valorizadas por sua qualidade de vedação, apelo estético e tradição, sua produção, reciclagem e transporte têm impactos significativos no meio ambiente, especialmente em termos de emissões de CO₂. Diante desse desafio, inúmeras discussões e iniciativas em torno da adoção de garrafas reutilizáveis como uma alternativa mais sustentável estão surgindo. Embora existam muitos obstáculos a serem superados, como a necessidade de apoio governamental e padronização das embalagens, eu ainda acredito que o reuso de garrafas será algo a ser considerado em um futuro próximo da indústria.

Assinatura Karene Vilela Vinhos Única

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