Um Brinde Incerto: O Vinho na Era do Neo-Proibicionismo

Um Brinde Incerto: O Vinho na Era do Neo-Proibicionismo

Se você é um aficionado pelo mundo dos vinhos, provavelmente já ouviu falar da Era da Proibição nos Estados Unidos. O que muitos geralmente sabem é que essa fase durou de 1920 a 1933 e foi marcada pela proibição nacional da produção, importação, transporte e venda de bebidas alcoólicas. No entanto, pouco se comenta que a proibição foi um experimento social audacioso e extremamente controverso. O principal objetivo era eliminar os males associados ao consumo de álcool. Com preocupações legítimas relacionadas à saúde pública, violência doméstica e corrupção política, a proibição gerou algumas consequências inesperadas. A conquista do voto feminino é frequentemente lembrada com a proibição, já que foi nesse período que as mulheres ganharam espaço e força na sociedade americana. No entanto, a restrição também levou ao surgimento de um mercado clandestino e a uma onda de atividades criminosas. Além disso, o período destacou uma crescente divisão na sociedade americana, onde os ideais de moralidade e ordem pública colidiam com o desejo da outra parte da população. Achávamos que a história teria terminado em 1933 se não fossem os cada vez mais inflamados grupos de neo proibicionismo ao redor do globo.

O que se sabe é que o movimento neo proibicionista tem o objetivo de interromper o consumo de álcool na sociedade, restringindo sua venda e marketing por meio de legislação e políticas que buscam reduzir o consumo médio e alterar as normas sociais para diminuir sua aceitabilidade. No mundo digital, grupos menos populares conseguem ter mais alcance de suas mensagens e influenciar cada vez mais pessoas. Não é à toa que recentemente a discussão sobre o impacto do consumo de álcool na saúde e a aplicação de impostos sobre essas bebidas voltou à tona em muitos palcos digitais e, como de costume na sociedade em que vivemos, observamos muitos extremos de “sim” ou “não”, e pouco debate.

Como importadora de vinhos para o Brasil, percebo que discutir o futuro do consumo de álcool é urgente para a sustentabilidade dos nossos negócios, atrelado à nossa responsabilidade social. Existem muitos tons de cinza nesta história e imagino que esse seja apenas o primeiro capítulo dessa nova série de ondas proibicionistas.

Foi na pandemia que ouvi dizer que a África do Sul havia proibido qualquer comercialização de álcool. A solução fez sentido para mim na época. Muitos casos de Covid no país não poderiam ter leitos perdidos para problemas decorrentes do álcool. Não se trata apenas de alcoolismo; há acidentes de trânsito, brigas, violência doméstica e dezenas de outros problemas em que o álcool poderia ocupar leitos necessários para cuidar da Covid. A indústria ficou em frangalhos nesse período, e eu sempre me questionei se existiria algo no meio-termo, mesmo o país sendo um dos mais conhecidos por alcoolismo e problemas com álcool no mundo — uma herança da época pré-apartheid, quando os negros eram pagos em parte com álcool, no famoso ‘dop system’. Não cheguei a uma conclusão se algo melhor poderia ter sido feito, mas a sensação que tenho é que negócios foram penalizados brutalmente, mas vidas podem ter sido salvas graças a isso. A falta de números específicos nos deixa no “achismo” por hora.

Mais recentemente, em janeiro deste ano, a OMS lançou um alerta enfático: não existe um nível seguro de consumo de álcool que não afete a saúde. Isso veio após um manual técnico divulgado em dezembro, no qual a organização sugeria aos países membros o aumento dos impostos sobre o álcool como medida para reduzir seu consumo. O ponto central dessa discussão envolve não apenas a saúde pública, mas também considerações sobre a autonomia de cada indivíduo e os impactos econômicos em toda a cadeia de indústrias relacionadas.

Li um artigo do Institute of Alcohol Studies que discutia por que, mesmo com altos impostos sobre o álcool, alguns países ainda enfrentam altas taxas de danos relacionados ao álcool. O texto destacava como fatores como a história da produção de álcool, proteção de indústrias específicas, e nuances econômicas e políticas influenciam a variação dos impostos entre diferentes países europeus. Enquanto países como a Finlândia e o Reino Unido possuem impostos altos e enfrentam problemas significativos com o álcool, a Itália e a Espanha, com impostos mais baixos, apresentam baixas taxas de danos relacionados ao álcool. Segundo o artigo, isso evidencia que as culturas de consumo de álcool são muito diferentes nesses países em comparação com as do Reino Unido, Alemanha e alguns países nórdicos. Essa diversidade cultural no consumo de álcool desempenha também um papel crucial na eficácia dos impostos como ferramenta para reduzir os danos. A complexidade dessa relação entre impostos e o consumo de álcool me fez perceber que simplesmente aumentar os impostos não é sempre a solução para reduzir os danos causados pelo álcool.

Na Inglaterra, conforme informações da Wine & Spirit Trade Association (WSTA), em agosto do ano passado houve um dos maiores aumentos únicos em impostos sobre bebidas alcoólicas em quase 50 anos. No Brasil, a discussão sobre a reforma tributária levantou questões sobre o Imposto Seletivo para bebidas alcoólicas. De acordo com Bernard Appy, o secretário extraordinário da Reforma Tributária, esse imposto contará com duas alíquotas: uma proporcional ao valor do produto e outra baseada no teor alcoólico e no volume do recipiente. Esse modelo sugere uma tentativa de balancear a carga tributária de maneira a considerar tanto o valor econômico quanto o potencial de dano relacionado ao álcool. A Frente Parlamentar da Uva e do Vinho, inaugurada recentemente, é uma resposta do setor vitivinícola para enfrentar esses desafios. A frente busca não apenas combater aumentos de impostos, mas também promover a sustentabilidade e o crescimento do setor no país.

A verdade é que, mundo afora, o setor de vinhos tenta argumentar que o vinho não deveria ser taxado igual a outros destilados e alguns ainda argumentam que deveria ser considerado como um alimento. Muitos levantam como argumento as centenas de estudos sobre os benefícios do consumo moderado do vinho. No entanto, no contexto global, o que vemos é uma tendência de queda no consumo de vinhos, com o ano de 2023 registrando o menor consumo desde 1996, segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). Este cenário é exacerbado pela inflação e pela concorrência de outras bebidas (RTDs, por exemplo), impactando diretamente a sustentabilidade de vinícolas ao redor do mundo.

Como profissional do setor de vinhos, admito que me preocupo com as ondas neo-proibicionistas e com a generalização da categoria “álcool” sob um único guarda-chuva, sem nenhuma diferenciação em relação aos benefícios já comprovados do vinho. Temo pelo futuro dos negócios e de toda uma cadeia produtiva, mas também entendo que o alcoolismo, a violência doméstica, os abusos, os acidentes e inúmeros outros problemas causados pelo álcool precisam ser endereçados pela indústria. Nessa equação, temos também as mudanças climáticas e, mais latente, o aquecimento global, que estão elevando os níveis de álcool no vinho. Se confiarmos na história milenar do vinho, uma curiosidade histórica é que os romanos, em geral, bebiam vinho constantemente, mas sempre diluído em água. Naquela época, apenas os bárbaros, considerados povos pouco civilizados na visão dos romanos, bebiam vinho puro. Tenho a sensação de que a resposta tem que estar no famoso “Beba com moderação”, mas o que nós, da indústria de vinhos, podemos fazer para ensinar o que é “moderação” se muitos ainda se encontram nos maniqueísmos do “sim” e do “não”? Convido vocês a assistirem aos próximos capítulos dessa novela juntos.

Assinatura Karene Vilela Vinhos Única

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