O sistema em três níveis do mercado de vinhos americano

Vinhos dos EUA: Uma jornada pelo sistema de três níveis

Nosso querido Nelson Rodrigues, já na década de 1950, reconhecia uma síndrome generalizada em nosso país: o famoso ‘complexo de vira-lata’. Ele dizia: ‘Por ‘complexo de vira-latas’, entendo a inferioridade que o brasileiro coloca em si, voluntariamente, frente ao resto do mundo’.

Como importadora de vinhos no Brasil, estou constantemente ouvindo muitos dizerem que no Brasil tudo está errado no mundo dos vinhos por falta de organização e que nos outros mercados tudo funciona muito melhor. Decidi, em meus últimos artigos, mostrar que a grama em outros países não é tão verde quanto todos tendem a imaginar.

No meu artigo ‘Monopólio – Pode isso, Arnaldo?‘, reflito sobre o mercado de vinhos nos países nórdicos e no Canadá, e as críticas que os sistemas de monopólio vêm enfrentando ao longo dos anos. Hoje, trago como exemplo os EUA, que têm um sistema totalmente oposto ao de monopólio, com um bem definido sistema de distribuição em três níveis, que também não se livra de críticas. Espero que nesta série, ao explorarmos mercados de vinhos do exterior, possamos juntos perceber que talvez Voltaire estava certo ao dizer que toda perfeição é um defeito. 

 

A Origem do Sistema de Três Níveis

O vinho sempre se revelou como um portal para viajar no tempo, trazendo consigo narrativas ricas em história e cultura. Nossa primeira parada é em 16 de janeiro de 1920, quando os EUA decidiram pela Lei Seca em todo o país. Esta lei determinava a proibição da produção, venda, transporte e exportação de bebidas alcoólicas no território norte-americano.

Como todos haveremos de concordar, tudo que é proibido é sempre mais gostoso, e o que foi visto no período dessa era da proibição foi muito contrabando, criação de bebidas alcoólicas que colocavam a saúde das pessoas em risco, feitas de forma precária e com muito improviso. Foi em 5 de dezembro de 1933 que o Congresso dos Estados Unidos revogou a Lei Seca, e nesse momento era necessário pensar em como as bebidas seriam tratadas no país. Foi então que o sistema de três níveis foi criado. O intuito principal era o controle da qualidade e a segurança dos produtos, facilitava a coleta de impostos e, acima de tudo, mantinha o controle sobre a dominação do mercado por empresas gigantescas, impedindo, assim, a ascensão de monopólios que dominavam o mercado pré-proibição.

Como Funciona o Sistema

Com um formato que lembra uma ampulheta, esse sistema foi desenvolvido visando manter um equilíbrio sensível entre regulação e liberdade. No topo da hierarquia estão os produtores, seguidos pelos distribuidores atacadistas e, por fim, os varejistas. 

Três níveis de distribuição do mercado americano

Cada nível desempenha um papel distinto: os produtores, que incluem vinícolas e importadores, são responsáveis pela criação e inovação e devem vender seus produtos a um distribuidor atacadista. No segundo nível, os distribuidores gerenciam a logística complexa de armazenamento, transporte e marketing dos vinhos, facilitando o acesso a diferentes mercados por meio de uma rede de contatos e relacionamentos. No nível final, os varejistas — lojas de bebidas, supermercados, restaurantes e bares — disponibilizam o vinho ao consumidor final. 

Em alguns estados, como Washington, existem exceções significativas a essa regra. Em Washington, após a aprovação da Iniciativa 1183 em 2011, o sistema estatal de varejo foi substituído por um modelo de varejo privado com alta taxação, permitindo aos varejistas contornar os distribuidores e negociar diretamente com os produtores. Essa mudança, embora aumente a concorrência em teoria, também levou a acordos exclusivos entre produtores e distribuidores em certos casos. Em suma, esse sistema, embora varie segundo o estado, fornece uma estrutura uniforme para equilibrar controle e acesso, com exceções notáveis como a de Washington.

Uma Taça Meia Cheia ou Meia Vazia?

Recentemente, o sistema de três níveis vem enfrentando críticas crescentes. Enquanto alguns elogiam sua habilidade em evitar monopólios e manter a qualidade e a segurança, outros apontam suas falhas. As críticas mais contundentes focam nos preços elevados dos produtos, uma vez que este sistema faz com que cada nível adicione custos ao preço final, e também na variedade limitada de vinhos, uma consequência direta da estrutura do sistema. Com a revolução digital, a aceleração do e-commerce e das vendas diretas ao consumidor (DTC), a relevância deste modelo tradicional é questionada. A era digital trouxe um novo dinamismo ao mercado, desafiando a rigidez do sistema e clamando por maior flexibilidade e inovação. Um fenômeno mais recente tem sido a tendência de importadores independentes criarem seus próprios sites de comércio online para vender diretamente aos clientes. Para um importador fazer isso, é necessário estabelecer várias sublicenças, pagando impostos em cada etapa do processo de três níveis.

Brindando ao Futuro: Novos horizontes para o sistema de três Níveis

Celebrando seu nonagésimo aniversário, o sistema de três níveis dos Estados Unidos encontra-se em uma encruzilhada histórica. No centro desta evolução, a pandemia da Covid-19 catalisou um aumento notável nas remessas diretas de vinhos aos consumidores (DTC), afetando do tradicional sistema de distribuição de vinhos e destilados.

A Wine & Spirits Wholesalers of America (WSWA), um grupo comercial da indústria que representa os atacadistas de vinhos e destilados nos Estados Unidos, defende fervorosamente o status quo. Para eles, trata-se de preservar a integridade do mercado, evitando monopólios e assegurando a qualidade dos produtos que chegam aos consumidores. No entanto, a investigação da Federal Trade Commission (FTC) sobre práticas anticompetitivas do Southern Glazer’s Wine and Spirits, o maior distribuidor de vinhos e destilados do país, lança dúvidas sobre a eficácia desse sistema. Por outro lado, a National Association of Wine Retailers (NAWR) e outros críticos pedem uma modernização urgente. Eles argumentam que o sistema está obsoleto, dominado por poucos e desalinhado com a era digital e as demandas do mercado atual.

É um debate que envolve muito dinheiro e tem enormes consequências para toda a indústria de vinhos e destilados. Encontrar o equilíbrio certo entre tradição e inovação, entre regulamentação e livre mercado, é o grande desafio atual. As discussões atuais e as consequentes decisões que serão tomadas não só moldarão o futuro do comércio de vinho e destilados nos EUA, mas também refletirão o pulso do setor frente às mudanças globais e tecnológicas. 

Vocês que conseguiram chegar até aqui já entenderam que o sistema de três níveis nos EUA, assim como os monopólios nórdicos explicados no meu último artigo, permanece um tópico de intenso debate e especulação. O que foi criado para evitar monopólios agora é acusado de gerar os mesmos. Quem me acompanha já sabe que onde há debate, é porque a mudança ou as exceções estão cada vez mais eminentes. Este sistema, nascido de uma necessidade de regulamentação, agora enfrenta o desafio de se adaptar a um mercado em constante evolução. No coração desta questão, está a busca pelo equilíbrio entre tradição e inovação, controle e liberdade, assuntos esses que estão cada vez mais polarizados e complicados de resolver em todos os âmbitos. 

No fim do dia, a única certeza é que se a perfeição existisse, ela seria sempre imperfeita, e nós, vira-latas, podemos respirar aliviados ao saber que não é só no Brasil que o tumulto é grande. Que venham as cenas dos próximos capítulos.

Fontes:

https://winefolly.com/lifestyle/three-tier-system/
https://vinepair.com/articles/three-tier-system-explainer/

https://www.nabca.org/three-tier-system

https://www.thedrinksbusiness.com/2023/06/does-the-three-tier-system-in-the-us-still-have-legs/

Assinatura Karene Vilela Vinhos Única

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