Como a crise climática impacta o vinho

Climão: como a crise climática impacta o vinho

  • Que tempo maluco hoje, né?

Se você, assim como eu, é daquelas que entra no elevador e já puxa um papo comentando a mudança repentina do tempo lá fora, com certeza já deve ter notado que assunto não anda faltando para entreter os vizinhos. Não existe dúvida de que as mudanças climáticas já são uma realidade em nossas vidas. Somos a primeira geração que está realmente sentindo os efeitos das temperaturas mais quentes e as alterações em sua totalidade (secas, geadas, ondas de calor ou de frio extremo, mudanças do tempo abruptas etc). Esse impacto não só trará mudanças para nossas conversas do elevador, como para a forma de produzir muito do que consumimos hoje em dia.

No mundo do vinho a agenda das mudanças climáticas é uma das mais discutidas hoje entre os produtores mais sérios, e os impactos disso prevêem alterar essencialmente o cenário vínico que já conhecemos. O Porto Protocol, por exemplo, é uma instituição internacional sem fins lucrativos, fundada pela Fladgate Partnership de Portugal (que faz o Porto Taylor’s), com centenas de outros membros empenhados em trabalhar pra mitigar esse cenário. Os desafios dos produtores se dividem em se adaptar às consequências das condições em que já vivemos, já pensando nas transformações a médio e longo prazo, e em criar soluções sustentáveis para evitar mais impactos.

EMBALAGENS: PASSO GRANDE PRA AJUDAR

Acompanhei os “climate talks” (em português “conversas sobre o clima”) que ocorreram nos últimos anos no canal do Porto Protocol no YouTube, e o primeiro assunto a ser levado em pauta foram embalagens sustentáveis. O capítulo chamava-se “O Elefante na Sala – Embalagens Sustentáveis em Vinho”.

Para quem leu minha última matéria aqui na Única sabe que a indústria de vinhos vem bastante devagar no que diz respeito a inovações em embalagens, mas definitivamente o aspecto da sustentabilidade é uma força catalisadora desse movimento. Soluções inovadoras vão existir cada vez mais. Por exemplo, o crescimento vertiginoso da empresa de embalagens Packamama, com sede em Londres, que produz garrafas de vinho “ecoflat”, feitas de material PET 100% reciclado. De acordo com um estudo feito pelo grupo ALPLA, o material produz 79% menos emissões de gases de efeito estufa, usa 90% menos energia para ser produzido e é 87% mais leve que a garrafa de vidro, reduzindo o carbono necessário durante o transporte.

Miguel Torres Packamama Bottle

TUDO COMEÇA NO VINHEDO

Outro assunto muito importante considerado na indústria são as práticas de viticultura. A viticultura orgânica, biodinâmica e as práticas sustentáveis que passam pelo uso consciente da água, o não uso de pesticidas e economia de energia são algumas das opções disponíveis hoje para os produtores mais engajados.

A bodega Miguel Torres (imagem acima), por exemplo, é conhecida por liderar essas mudanças na Espanha. Recentemente anunciaram experimentos tecnológicos para minimizar a pegada de carbono, como a reutilização do CO₂ da fermentação alcoólica do vinho para obter sua própria energia (alimentada a gás). Além disso, foram responsáveis por criar a primeira associação na Espanha focada em regenerar a qualidade dos solos. A viticultura regenerativa é um método que pretende restaurar a vida dos solos nos vinhedos, imitando exatamente como a natureza funciona em um ambiente natural. Quanto mais vida no solo, maior a capacidade de capturar CO₂ atmosférico e, portanto, minimizar o aumento das temperaturas.

O que poucos lembram é que o aquecimento global é, também, responsável pelo aumento da erosão do solo. Colocando de forma simples, o aumento das temperaturas intensifica o ciclo da água na terra, aumentando a evaporação, resultando em mais chuvas e, consequentemente, em mais erosão dos solos. Para evitar isso são utilizadas práticas de manejo para melhorar o controle do abastecimento de água na videira, melhorar seu vigor e, com técnicas de preparo e cobertura do solo, prevenir o seu desgaste.

A região do Piemonte é bastante famosa pelas erosões e usa a permacultura (princípios da agricultura sustentável) para evitá-las. O renomado produtor Gaja, por exemplo, vem trabalhando há algum tempo no vinhedo Sori San Lorenzo com técnicas de cobertura com ervas daninhas e grama natural.

REINVENTANDO A RODA: NOVOS MÉTODOS DE FAZER VINHO

Em 2022 o calorão inundou as mídias sociais e as notícias nos jornais de quem acompanhou o caos no verão europeu, mas não é de hoje que algumas regiões do mundo vêm sofrendo com ondas de calor e as queimadas resultantes, como Austrália e Califórnia. Já é sabido entre os produtores que as temperaturas acima da média poderão causar alterações na fisiologia da videira, impactando a qualidade das uvas e consequentemente dos vinhos.

Produtores na Austrália, como a enorme Austrália Treasury Wine Estates Company, já adotaram um método diferente de poda tardia, para que a data da colheita também possa ser adiada. Ao invés de podar no inverno, como é feito normalmente, eles decidiram fazer a poda durante a primavera, assim conseguem garantir um melhor potencial de maturação fenólica total, fazendo com que os vinhos alcancem os sabores esperados. Afinal, as ondas de calor aceleram a maturação dos açúcares e nem sempre a maturação fenólica (em que são gerados aromas, taninos e cor) consegue acompanhar com a mesma rapidez. 

As variedades de uva do futuro são outro assunto discutido, com estudiosos afirmando que as castas vão mudar nos próximos anos devido às temperaturas mais quentes. Algumas regiões já estão abrindo espaço em suas legislações para experimentos, como Bordeaux, que recentemente autorizou a plantação de quatro novas castas tintas (Touriga Nacional, Marselan, Castets, Arinarnoa) e duas castas brancas (Alvarinho e Liliorila). E Franciacorta, na Itália, autorizou a branca Erbamat, também já considerando o aquecimento global.

O Dr José Vouillamoz, especialista em origem e filiação de castas, estudou as principais alternativas em resposta às alterações climáticas e descobriu Nebbiolo, Zinfandel, Grenache, Pinot, Xinomavro e Sangiovese como as castas tintas mais adequadas para o clima quente do futuro. Para as brancas, a Chasselas parece ser a melhor opção. Os OGM’s (Organismos Geneticamente Modificados) são também grande aposta, pois espera-se que vinhas mais resistentes sejam produzidas artificialmente.

Vinícola Gusborne Kent Reino Unido
OI, VINHO FINLANDÊS?

Apesar de o cenário parecer bastante apocalíptico, no universo dos vinhos algumas regiões podem se beneficiar e se tornar produtoras de qualidade. O estilo geral dos vinhos deve mudar, melhorando o potencial de excelência para as regiões mais frias, abrindo espaço para mais áreas propensas à viticultura e reorganizando o mapa vínico global.

Os clássicos exemplos hoje são as regiões de Kent (imagem acima), Sussex e Hampshire na Inglaterra, consideradas por alguns especialistas as regiões de Champagne do futuro. A Taittinger, por exemplo, foi a primeira casa francesa de Champagne a comprar vinhedos nessas zonas em 2015. Além disso, segundo a Wine Enthusiast, a Bélgica, cuja história vínica foi ofuscada por sua cultura cervejeira, quadruplicou a produção de vinhos entre 2006 e 2018, e tem ao seu lado a Finlândia, Suécia e outros climas boreais em que não se via a cultura de produção de vinhos, mas agora já sim.

GERINDO A ÁGUA

A questão “seca versus irrigação” e sua relação com o consumo consciente da água dá um capítulo à parte da novela. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, 70% da água utilizada no mundo vai para a agricultura (uma média global), e esse número sobe para 82% em países subdesenvolvidos.

Sabendo que um dos recursos mais escassos que temos hoje é água limpa, ter consciência de como trabalhar com irrigação de forma sustentável será o futuro da indústria, seja por consciência ou por legislações punitivas. O uso de tecnologia de ponta e “dry farming” (em português “agricultura de sequeiro”) são soluções que algumas regiões como a Califórnia já começaram a adotar.

Poderia escrever mais centenas de exemplos e assuntos de como as mudanças climáticas estão mudando o percurso da indústria vínica na história que estamos testemunhando. No entanto, a essa hora o elevador que pegamos juntos já parou em algum andar, e as previsões climáticas foram interrompidas, mas não faltarão oportunidades nas próximas décadas para revisitarmos o assunto juntos.

Por hora minha dica é: pesquise mais sobre os produtores de que você mais gosta e priorize aqueles que estão verdadeiramente protagonizando o uso consciente dos recursos naturais. As próximas gerações lembrarão de você.

Assinatura Karene Vilela Vinhos Única

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