Quanto mais pesada a garrafa de vinho, melhor o vinho? Por Karene Vilela

Quanto mais pesada a garrafa melhor é o vinho?

Quando pensamos em uma embalagem para vinho, imediatamente vêm à mente as tradicionais garrafas de vidro. A verdade é que não foi sempre assim. Embora as garrafas de vidro remontem à era da Mesopotâmia (por volta de 1500 AC), as técnicas de sopro de vidro não eram fáceis de serem dominadas no passado, portanto o vinho era transportado em barricas de carvalho ou em peles de animais. Foi apenas no século XVII que as técnicas de vidro foram aprimoradas e, desde então, as garrafas tornaram-se mais populares devido ao seu caráter inerte.

 

Agora, quando pensamos em cervejas pensamos em litrão, latas, latinhas, long neck, kegs e inúmeras formas de envase da bebida. Não é de hoje que boa parte das categorias de bebidas alcoólicas é muito inovadora e criativa nos formatos de embalagem. Nesse contexto, a indústria do vinho tem sido relativamente lenta e ainda é muito associada à boa e velha garrafa de vidro. Hoje vamos refletir sobre o porquê de a indústria do vinho ser menos inovadora nas embalagens e as projeções para o futuro próximo.

Em primeiro lugar, o mundo do vinho é valorizado por ser um produto em que o conceito de tradição é o fator principal de qualidade. A resiliência do setor em meio a guerras, desastres naturais e o fato de muitos produtores ainda estarem na mesma família há gerações dificultam a mudança de muitos hábitos. A garantia de qualidade das garrafas de vidro e das rolhas de cortiça mostra há anos a eficácia de ambas na conservação do vinho, reforçando a mentalidade de que em time que está ganhando não se mexe.

Diferentemente de outras indústrias de bebidas alcoólicas, as vinícolas não engarrafam durante todo o ano. As vinhas são fontes limitadas para produzir uvas (geralmente uma vez por ano), fazendo com que o engarrafamento aconteça em datas pré-determinadas. Pequenos produtores normalmente não possuem linhas de engarrafamento, por isso muitas vezes usam instalações de terceiros – só isso já é um desencorajamento para mudanças. Além disso, as leis do vinho em algumas denominações de origem podem restringir embalagens distintas. O TTB (Alcohol and Tobacco Tax and Trade Bureau) dos Estados Unidos e a legislação vitivinícola da União Europeia, por exemplo, têm regras claras sobre o tamanho das garrafas de vinho.

Garrafas de vinho enfileiradas lado a lado

Além disso, o mercado de destilados e da cerveja é dominado por grandes grupos que respondem pela maioria das vendas, facilitando a tomada de decisão e “lobby” da indústria para mudanças. Já no caso da indústria do vinho, apesar de algumas importantes fusões, o mercado ainda é muito fragmentado, com o número de vinícolas só crescendo. Segundo a Statista, os EUA tinham cerca de 11.000 vinícolas em 2021, sendo que em 2006, o número era inferior a 7.000. Em um cenário com tantos interlocutores, convencer os concorrentes a investirem juntos em ideias inovadoras é um desafio, afinal, inovar sozinho é mais caro e muito mais arriscado também.

Mesmo com todos esses motivos para manter a indústria do vinho mais lenta nesse quesito, hoje há uma série de razões sólidas para fazer com que os produtores busquem se atualizar e se dediquem a uma mudança a curto prazo. Sustentabilidade, problemas de abastecimento da cadeia pós-covid e mentalidade das novas gerações são alguns dos motivos que vão impulsionar as mudanças daqui para frente e já podem ser vistas em alguns casos de sucesso na indústria.

A sustentabilidade hoje em dia é uma necessidade em todos os setores, e o tempo das práticas de greenwashing (fingir que faz algo para o meio ambiente e não faz) já passou. Vinhos enlatados, garrafas planas (feitas de plástico PET reciclado) e garrafas de papel são algumas opções de produtos recicláveis. Todas elas são contraponto da garrafa ultra pesada (normalmente do Novo Mundo) que está no mercado para dar ao consumidor a ideia de um “produto melhor”. Essa garrafa pesada é responsável por muito mais emissões de CO₂.

Na vanguarda, o produtor americano Truett-Hurst há alguns anos lançou uma embalagem totalmente reciclável, projetada pela empresa GreenBottle. O vinho foi chamado PaperBoy, uma espécie de casca de papelão. Paperboy foi um marco na indústria e o início de uma mudança. Seguindo a tendência, as latas de vinho apareceram como uma solução mais acessível e escalável. De acordo com a Business Wire, o segmento de vinhos em latas tem potencial para atingir cerca de USD600 milhões até 2028. Até a empresa tradicional Taylor’s, do Douro, já lançou um Porto em lata. Nesse mesmo sentido, a casa de Champanhe Maison Ruinart lançou uma embalagem para o seu vinho 100% reciclável, como alternativa a uma caixa de presente. Com essa nova embalagem, a Ruinart acredita na redução da pegada de carbono em 60%.

O mundo do vinho após a Covid-19 está sofrendo com uma grave escassez devido aos confinamentos prolongados em todo o mundo. Garrafas de vidro estão no topo da lista de escassez na cadeia produtiva do vinho. Há produtores desesperados para manter suas alocações de garrafas, e especialistas acreditam que esse cenário pode durar pelo menos 2 ou 3 anos. Como alternativa ao vidro, novos formatos de embalagens estão cada vez mais em alta, como a Bag-in-Box (BIB).

Vinho bag in box branco

Os produtos BIB possuem um aspecto ecologicamente mais interessante porque o peso é menor em relação às garrafas de vidro. Além disso, os BIB aumentaram em popularidade durante os confinamentos porque os consumidores começaram a valorizar a liberdade de consumo. Afinal, você pode tomar uma taça de vinho a qualquer hora por um longo período (BIB dura em média 1 mês na geladeira).

A ascensão das novas gerações tornando-se economicamente ativas fazem da inovação a melhor forma de manter os mais jovens atraídos pelo vinho. Os rótulos tecnológicos são a resposta para engajar esse novo público que nasceu com o celular na mão. Rótulos AR (Augmented Reality), NFC (Near Field Communication) e QR codes (Quick Response codes) são exemplos de novas tecnologias que as vinícolas estão usando para conectar a história do vinho com novos consumidores. Se você ainda não assistiu ao vídeo do vinho 19 Crimes no YouTube, corre lá para ver um bom exemplo de caso de sucesso para um rótulo que envolve tecnologia.

De fato, a indústria do vinho é um pouco lenta para inovar nos tipos de envase. A tradição e a fragmentação da indústria atrapalham, e ainda temos os mitos de que vinho bom é só no vidro, e quanto mais pesada a garrafa, melhor. No entanto, a sustentabilidade, a escassez pós-covid e a mentalidade das novas gerações serão a força motora para acelerar essas mudanças e impulsionar inovação para as embalagens a curto prazo. Por isso, eu não sei vocês, mas o que eu mais quero são diversas opções para levar meu vinho. Quanto mais formatos, mais possibilidades de consumo em diversas ocasiões.

Assinatura Karene Vilela Vinhos Única

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