COMO SE TORNAR UM GEEK NO MUNDO DOS VINHOS Parte 2: O que observamos com profissionais na prática

Como se tornar um geek no mundo dos vinhos Parte 2: O que observamos com profissionais na prática

Olá pessoal!

FINALMENTE retomamos o tema da coluna do mês de julho, Como se tornar um geek no mundo dos vinhos.  Não sei se vocês se lembram dela, mas tentamos responder, (em teoria), como é que aprendemos; seria só técnica de estudo ou cada um tem um jeito diferente de absorver as coisas? E por que uns aprendem mais facilmente e outros nem tanto? 

Ao final do texto, colocamos que iríamos praticar o Meta-Aprendizado, com entrevistas de pessoas nos mais variados estágios de conhecimento no mundo do vinho para entender como elas fazem pra aprender.

E então fomos “a campo” e concluímos já de cara: desde o estudante da ABS até o Master of Wine, o caminho para a excelência no conhecimento no mundo do vinho é intrincado, repleto de nuances e, muitas vezes, mal compreendido. É o paradoxo da escolha: são tantas opções que as pessoas acabam ficando perdidas.

Em um mundo saturado de informações instantâneas e rasas, o vinho permanece como uma das áreas de estudo que requer uma combinação de paixão, dedicação e educação profunda. É aquele assunto complicado que todo mundo insiste com o chavão de que vai descomplicá-lo – e no fim só repete mais do mesmo, com o público que não é especialista seguindo com dificuldade de entende-lo. E assim vamos afastando potenciais novos consumidores e especialistas – é a crise de consumo na indústria do vinho – mas isso é assunto para outra coluna (e colunista também, vai lá Karene Vilela, essa é com você!)

Ao tentarmos entender como é a jornada dessas pessoas, acabamos compreendendo que outros pontos são fundamentais para se tornar um especialista em vinhos e que não estavam em nosso script inicial. Estamos falando de algo além de técnicas e ferramentas de aceleração de aprendizado: a pergunta acabou mudando para “o que impulsiona as pessoas por essa busca contínua por excelência?” 

E assim formamos uma narrativa coletiva para responder essa pergunta. E as entrevistas ficaram tão boas que nos próximos meses vamos publicar aqui na nossa coluna o melhor de cada uma delas, combinado?

Como falamos, as entrevistas ofereceram uma visão abrangente da jornada de cada um, destacando a paixão, dedicação, desafios e recompensas que vêm com ela. Além disso, a mentalidade de aprendizado contínuo e a capacidade de adaptar-se e evoluir são essenciais para se manter relevante e informado em uma indústria em constante mudança como a do vinho. 

Mas vamos primeiro apresentar nossos entrevistados:

Vamos conhecer os principais pontos em comum a todos os depoimentos?

PONTO-CHAVE #01 – Paixão e Dedicação

O primeiro ponto em comum que identificamos é a paixão e dedicação. Quase todos os entrevistados mencionam a importância da paixão pelo vinho. Para eles, essa paixão é o que impulsiona o desejo de aprender mais e se aprofundar nos estudos, independentemente do nível ou da finalidade da certificação.

Enquanto muitos entram no mundo do vinho primeiro por paixão, logo acabam transformando a paixão em profissão. E isso é a historia de muitos que fazem uma transição de carreira.

Por exemplo, tanto Bárbara Nogueira quanto Débora Juneck, sendo influenciadoras digitais, têm uma abordagem única em relação à paixão e dedicação. Ambas compartilham sua jornada com uma comunidade online e recebem feedback e incentivo de seus seguidores. E transformaram isso em sua ocupação profissional principal. 

Bárbara, por exemplo, enfatiza o quanto que ela atribui aos estudos do vinho sua evolução pessoal e profissional e como isso transformou a vida dela juntamente com o feedback das pessoas que a acompanham e incentivam a seguir em frente e a compartilhar cada vez mais. E que a levou à criação de diversos cursos e práticas, mirando um nicho de pessoas que estava carente de informação e que compartilhavam os mesmos anseios da Bárbara do passado, iniciante no mundo dos vinhos.

Por outro lado, Tom Saleme e Karene Villela, que estão mais envolvidos no lado comercial e de negócios do vinho, veem a paixão como algo que impulsiona a excelência em seus respectivos campos. Tom destaca a necessidade de se dedicar em estar sempre atualizado, movido por sua paixão pelo vinho e por seu negócio – e essa ser uma das razoes de ele estar buscando a certificação Diploma WSET Leve 4 in wines. Já Karene menciona diversas vezes sobre a profundidade do programa Master of Wine e do quanto é necessário assumir um compromisso muito intenso para se aventurar nesse nível de estudo – e tendo ainda que comandar uma importadora de vinhos ao mesmo tempo de tudo isso -. É muita dedicação!

Alias, como sugestão, procure ler o livro de Angela Duckworth, Grit. (Garra: O Poder da Paixão e da Perseverança).

PONTO-CHAVE #02  – Grupo de Apoio e Senso de Comunidade

 Os entrevistados destacaram a importância de ter um grupo de apoio ou estar envolvido em uma comunidade de pessoas com interesse no vinho em comum. Vide os exemplos tanto da Bárbara quanto da Débora com suas comunidades e seguidores. Seja através de colegas de estudo, mentores ou a própria comunidade online, ter pessoas para compartilhar a jornada é crucial. Porém, muitas vezes a jornada é pessoal e totalmente individual, como mencionado por Amanda Barnes, colocando que no fim o Master of Wine é um programa de autoaprendizado. 

Contudo, a despeito de ser pessoal e individual, segue sendo fundamental ter um grupo para compartilhar essa jornada, com a mesma Amanda cita em sua entrevista ou como Anne menciona que uma das melhores partes da jornada no Master of Wine foi a camaradagem com os colegas, encontrando alívio do estresse ao rir e compartilhar experiências (e frustrações comuns entre eles).

E claro, vale mencionar Tom (com as Confrarias Vinho Justo) e Anne (com seu Diplomatherapy) com suas comunidades e engajamentos virtuais (parte do trabalho mas ao mesmo tempo a razão de ser de seus projetos).

PONTO-CHAVE #03  – Educação Formal

A educação formal, como a obtenção de certificações e a participação em cursos, foi frequentemente citada por nossos entrevistados. Eles reconheceram a importância de ter uma base sólida de conhecimento teórico, bem como a credibilidade e autoridade que certas qualificações podem conferir em um campo tão especializado.

Portanto, independentemente do estágio de aprendizado ou da carreira, a educação formal é vista como um pilar fundamental. Ela oferece a estrutura, a profundidade e as ferramentas necessárias para navegar na complexidade (e complicações), além de proporcionar uma constante evolução.

PONTO-CHAVE #04  – Desafios e Recompensas

A jornada educacional no mundo do vinho não é isenta de desafios (e múltiplos, diga-se), sejam eles relacionados ao tempo, finanças ou equilíbrio entre estudo e trabalho. E também ao estresse e ansiedade que as pessoas se impõe durante sua jornada a medida em que ela fica mais avançada. No entanto, os entrevistados frequentemente destacaram as recompensas que vêm com esses desafios, – em termos de realização pessoal, reconhecimento e mais oportunidades na carreira – como algo que se paga ao final de tudo.

Primeiro abordaremos um desafio importante trazido pelo Vinicius e muito relacionado à realidade brasileira. E um que é coletivo, relacionado a aspectos econômicos (vinho caros, formações caras pra quem quer entrar no vinho), sociais (a educação de vinho não está amplamente difundida), de raça, gênero e sexualidade (há muito preconceito nas falas, vagas de empregos, discussões…). E vamos lá, isso é fato, mundo do vinho é pouco inclusivo, e este é um imenso desafio principalmente pra quem não é “padrão” na indústria. E isso precisa ser endereçado urgentemente. Precisamos de mais inclusão e diversidade por várias razões, mas não esqueçamos que isso também traz benefícios econômicos, afinal precisamos aumentar nossa base de consumo. E não é mantendo o vinho como produto de nicho que vamos atingir esse objetivo.

Ademais, o relato de Nina Jensen sobre sua experiência no campeonato mundial de sommeliers (clique aqui para assistir a final de 2019) revela o quão intrincado é o entrelaçamento de mente e corpo sob pressão. Ela destaca que, apesar de um estado mental estável, forjado por exercícios e treinamento mental, as reações físicas intensas são inevitáveis e gerenciar essas reações é uma batalha difícil. É uma realidade que muitos estudantes e candidatos a certificações compreenderão profundamente; a luta não é apenas para armazenar conhecimento, mas também para manter a calma sob o olhar avaliador.

Da mesma forma, Anne McHale compartilha que o caminho em sua jornada rumo ao Master of WIne envolveu sacrifícios pessoais significativos e o enfrentamento da procrastinação, bem como a superação de intimidantes desafios relacionados à memória. McHale nos assegura que, apesar de árdua, essa jornada é familiar a muitos que buscam excelência em suas áreas, e que as recompensas, embora exigindo um preço alto, são ricas e transformadoras, abrindo portas para novas oportunidades e permitindo inspirar a próxima geração do vinho.

PONTO-CHAVE #05  – Abordagem Prática x Teórica

Sim, nem tudo é teoria. A capacidade de relacionar o que é aprendido nos livros com o que é experimentado na taça é essencial. Enquanto a teoria fornece a base e o entendimento conceitual, a prática, especialmente a degustação, permite uma compreensão mais profunda e intuitiva. Os entrevistados refletiram sobre a importância de equilibrar esses dois aspectos em suas jornadas de aprendizado.

Amanda Barnes fez um depoimento sobre como são os exames do programa MW para ilustrar teoria versus pratica. 

A teoria envolve aprender todos os aspectos da indústria do vinho, desde a viticultura até a filosofia! Portanto, você realmente precisa aprender sobre as complexidades de cada área. São cinco provas: viticultura, vinificação, transporte e engarrafamento, e a quinta prova é bastante filosófica e focada em tópicos abertos (pode perguntar qualquer coisa!)

Depois, há a parte prática, que é toda sobre degustar vinhos às cegas. Para se preparar para ela você tem que fazer muitas degustações, tanto às cegas quanto com os rótulos visíveis, para ter certeza de que conhece todos os vinhos do mundo e como identificá-los. 

E finalmente, há a teoria da degustação na parte prática. Você precisa ser capaz de identificar qual é o vinho (que é a degustação), mas também precisa saber exatamente como ele é feito, as variedades de uva, a região, como é vendido, o valor que tem, o álcool/ácido/açúcar – e tudo isso requer muito conhecimento teórico.

Falando em degustação, Anne McHale nos deu alguns insights práticos que valem ser compartilhados:

  • Quando se trata de degustação às cegas, não se preocupe em acertar o vinho, mesmo que essa seja a habilidade que todos fora do mundo do vinho acreditem ser a mais importante! Em vez disso, concentre-se em compreender os aromas, sabores, estrutura e qualidade do vinho. Em seguida, utilize essas informações para tirar conclusões razoáveis. Os examinadores da WSET e MW valorizam a lógica fundamentada mais do que palpites de sorte.
  • Desafie-se a identificar aromas em sua vida cotidiana e descrevê-los com palavras. Essa prática fortalece a conexão entre seus sentidos e a linguagem, tornando você um melhor degustador.
  • Ao responder os exames teóricos no nível 3 da WSET e acima, nunca apenas descreva algo. Sempre faça conexões com o estilo, qualidade e preço do vinho.

Por fim, sendo objetivo e prático como só ele é, Vinicius sugere degustações temáticas (confrarias, grupos de estudo ajudam bastante), viagens, leituras não-didáticas sobre o tema (por diversão), ouvir podcasts e participar de eventos do setor. 

PONTO-CHAVE #06  – Evolução Contínua

Se há uma verdade no mundo do vinho é que ele está constante evolução. Vários entrevistados destacaram que se você quiser se manter relevante precisa de um aprendizado contínuo.

Karene menciona o fato de que desde que entrou para o programa Master Of Wine há muita informação nova quase que sempre, o que leva ela a se questionar como ela ficou tanto tempo sem esse conhecimento (e estamos falando de alguém que estuda há anos e com vasta experiencia de mercado). Porem, é essa constante descoberta que motiva seu estudo contínuo.

E até mesmo uma Master of Wine com a Anne McHale menciona que percebeu cedo que seria impossível saber tudo, focando então em ter uma boa compreensão geral do todo enquanto estudava alguns tópicos específicos em maior profundidade. E isso traz um link para algo super interessante mencionado pela Amanda Barnes: para seguir com uma evolução contínua, não trate as coisas como adicionar mais conhecimento e sim em aumentar o número de conexões entre o que você já sabe para então extrapolar isso de maneira inteligente. Foque em construir essas pontes entre as áreas de conhecimento em vez de apenas absorve-los isoladamente.

E levando em consideração seu lado educador e também seu lado aluno, Vinicius ressalta que é essencial muitas vezes ter que rearranjar/ressignificar o que já se sabe, se adaptando aos diferentes estilos de formações e certificações (vide as diferenças entre as escolas ABS x WSET – o próprio Vinicius tratou disso aqui)

Por fim, trazemos a recomendação da Nina, na qual você deve decidir por si mesmo o quão disposto você está a investir em seus estudos, confiando em seu próprio processo de adaptação. Esteja sempre curioso. Dessa forma, você irá construir seu conhecimento de maneira sólida e evitará conflitos internos, ao mesmo tempo que tornará a aprendizagem divertida e interessante (e essa empolgação é fundamental para manter a motivação a longo prazo!).

PONTO-CHAVE #07  – Visualização (e meta)

Alguns entrevistados mencionaram a técnica de visualização do que se deve fazer e também o sucesso com seu resultado final para se manter motivado e focado. 

Nina cita, no caso dela, no treinamento para a maior competição do mundo para sommeliers, que praticar a  visualização do que se quer fazer é importantíssimo, pois é um treino da mente para lidar com a pressão, praticando isso até que sua memória muscular estivesse no lugar certo. Ela também cita a meditação, para não se perder em ruídos causados por pensamentos e conseguir “voltar” pro presente, focando no que é necessário fazer no agora.

Anne McHale argumenta que visualizar o resultado motivou ela a persistir, uma vez que alcançá-lo seria enormemente benéfico para sua carreira. Assim, ela escreveu “Anne McHale MW’ acima da mesa dela em casa, olhava para isso e se imaginava como uma MW o tempo todo. E isso ajudou demais a seguir nas horas difíceis. 

Parafraseando Muhammad Ali: “Se a minha mente pode conceber isto; e o meu coração pode acreditar nisto – então eu posso alcançar isso.” E se o Muhammad Ali não sensibilizou você, procure pelo novo livro do eterno Terminator Arnold Schwarzenegger. O primeiro capítulo trata só desse conceito – “Tenha uma visão clara”

SE FOSSEMOS RESUMIR AS DEZ PRINCIPAIS PALAVRAS-CHAVE DA NOSSA PESQUISA

Se o colunista se passou esse mês e é muita coisa pra ler, foque então nas palavras-chave a seguir:

  1. Educação
  2. Paixão
  3. Desafio
  4. Comunidade
  5. Prática
  6. Teoria
  7. Evolução contínua
  8. Dedicação
  9. Visualização
  10. Recompensa.

Concluindo (por ora)

Essa pesquisa me levou a crer que é a combinação de teoria e prática, apoiada por uma comunidade/grupo de apoio, que parece ser a chave para o sucesso. Alias, isso foi algo revelador: por trás de cada estudante, entusiasta ou especialista, há um grupo. Uma comunidade que apoia, desafia e eleva. À medida que avançamos para um mundo cada vez mais digital e desconectado, o vinho nos oferece um lembrete tangível do poder da conexão humana. E assim, pedimos a você, leitor: da próxima vez que abrir uma garrafa, faça mais do que saborear o vinho. Conecte-se com sua história, com seus amigos, com sua confraria, com sua comunidade e, mais importante, compartilhe-a.

Porque o vinho até pode ser complicado, mas nossa relação com ele e com quem o dividimos não deveria ser.

Pelo contrário. Vamos usar o vinho para descomplicar nossas relações e aproximar as pessoas! Principalmente em tempos tão difíceis de polarização e diferenças cada vez mais irreconciliáveis.

Abraços e até a próxima. E sigam os entrevistados!

Assinatura Única Pablo Fernandez

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