quer trabalhar com enoturismo? depoimentos de profissionais

Parte II – Quer trabalhar com enoturismo? Depoimentos de profissionais do ramo

Na última coluna falamos das diferentes possibilidades dentro do setor do Enoturismo para quem tem planos de fazer uma transição de carreira. Para elaborar melhor essas diferentes posições e traçar panoramas realísticos daquilo em que elas consistem, convidei amigos e amigas que trabalham no ramo pra não me deixar mentir.

Aí vão os depoimentos desses profissionais incríveis com quem já trabalhei, estudei ou só tomei umas taças.

  1. Ser guia turística/o numa vinícola

Nuno Silva, Portugal

Educador Sênior no Departamento de Enoturismo da Symington Family Estates, Porto

Eu trabalho duro, mas me divirto muito – acho que não existe forma de ser mais bem-sucedido no trabalho do que isso. 

Tenho a oportunidade de transmitir minha paixão em 4 línguas diferentes e acolher uma gama muito diversa de clientes, do visitante mais simplório à primeira vista, sem nenhuma informação sobre vinhos, até os perfis mais exigentes, que esperam do meu serviço um alto nível de detalhamento. Estabelecer uma conexão emocional com a pessoa, seja quem for, acaba por ser a chave de um serviço bem-sucedido, e consequentemente de vendas e feedback positivo.

Eu tento me manter atualizado na indústria ao provar mais e mais vinhos, e assim continuar a aprender e ser capaz, por exemplo, de sugerir e preparar melhores harmonizações conforme a escolha do vinho. Durante os meus anos 20, tentei adquirir tantas habilidades e competências quanto pude, trabalhando em ambientes diferentes, países diferentes e com colegas de trabalho diferentes. Agora sinto que é hora de colher os frutos desse investimento.

  1. Ser gerente turística/o numa vinícola

Natalia Coto, Costa Rica

Sommelière certificada pela Escuela Argentina de Sommeliers e pela CETT Barcelona

Ter trabalhado como Gerente de Enoturismo numa vinícola foi uma experiência muito bonita e educativa. Aqui você é a cara e a representação da bodega para os visitantes, por isso depende muito de você que a experiência deles seja maravilhosa, que depois se lembrem da visita e que sigam consumindo seus vinhos.

É preciso conhecer bem o produto porque se acaba encontrando tanto pessoas que não conhecem de vinho, quanto especialistas. E todos eles fazem perguntas. Mas, mais que conhecer o produto, é preciso acreditar nele, pois, sem que a paixão seja transmitida, o resultado da visita não é o mesmo.

Também foi interessante ter criado conexões preciosas com pessoas do setor, gerentes, enólogos, guias de outras vinícolas, agentes de turismo etc, e assim ter aumentado consideravelmente minha rede.

Descobri a suma importância da recomendação boca a boca, ainda que as redes sociais tenham também bastante peso. É muito importante saber criar negócios, atrair mais clientes e buscar oportunidades que incrementem o enoturismo da empresa. No fim, a mentalidade de um/a Gerente de Enoturismo é que, quanto melhor a experiência que se entrega ao visitante, melhores resultados de visitas e vendas terá a vinícola.

  1. Dar aulas

Diego Ventura, Brasil

Educador Sênior de Vinhos na Wine School do World of Wine, Porto

Trabalhar como educador em um empreendimento turístico é um convite constante à flexibilidade didática. É compreender que o cerne do trabalho é por essência híbrido – uma parte educação e uma parte entretenimento.

Falando em desafios, para mim, o primeiro a me tirar um pouco o sono foi de fato ser um brasileiro a dar formações em vinhos portugueses… para portugueses. Apesar de ter sido muito bem recebido pela equipe, existia o questionamento se eu havia me preparado o suficiente para desenvolver aquele papel. Acredito que minhas experiências em outras áreas, inclusive com a docência, acabaram por desenvolver em mim habilidades de gestão de sala de aula que ajudaram a superar esse e outros obstáculos.

  1. Ser somm num restaurante ou estabelecimento turístico

Raul Vega, México

Sommelier no La Cité du Vin, Bordeaux

A minha função no La Cité du Vin começou com um enfoque duplo na degustação e no museu, o que, no início, me rendeu o grande desafio de explicar com precisão a história de Eleanor de Aquitânia, localizar as 65 AOCs de Bordeaux e saber como elaborar as comparações com outras regiões da França, entre outras coisas. Eventualmente passei a desempenhar mais funções de Sommellerie, ao lado de profissionais que tinham conhecimento específico de vinhos de Bordeaux e do mundo, o que acabou por ser mais adaptado ao meu perfil.

Existe um intercâmbio constante de conhecimento com minhas companheiras e companheiros em função de nossas experiências locais e globais. Junte-se a isso o fato de que cada pessoa na equipe tem uma trajetória diferente no mundo do vinho: alguns vêm da restauração, outros da viticultura, do marketing, do turismo etc.

Numa semana normal de trabalho, dentro da seleção de vinhos disponíveis à degustação, temos a oportunidade de provar entre 15 e 20 rótulos de diferentes regiões do mundo e comentá-los em equipe. Mensalmente também temos formações oferecidas por parceiros externos ou pelo próprio museu.

De início pensei que seria complicado com os franceses o fato de que havia um mexicano que lhes falasse sobre vinhos do seu próprio país. Mas fui surpreendido. A eles, afinal, importa mais falar sobre o vinho do que sobre a minha origem, embora sempre me perguntem sobre o meu sotaque. E acho que ficam felizes ao praticarem o espanhol dizendo no final “muchas gracias”.

  1. Fazer cruzeiros

Euclides Neto, Brasil

Professor universitário, Enólogo e Guia no Vapor de Vinho

Sempre adotei a ideia de que o Enoturismo precisa ser vivenciado em situações que fujam do simples padrão fixo de degustações e tours em vinícolas. Por isso, resolvi experimentar trabalhar com o que parecia ser um passeio enoturístico realmente promissor: um cruzeiro temático de vinho. 

Situado na região do Vale do Submédio São Francisco, no nordeste brasileiro, o Vapor do Vinho possibilita ao visitante uma experiência holística para quem deseja desbravar belezas dessa região tropical e semi-árida produtora de vinhos. O passeio engloba desde a navegação pelo lago de Sobradinho-BA, parada para banho numa ilha às margens do rio São Francisco, almoço regional musicalizado e visita à vinícola Terranova, uma famosa e bem estruturada propriedade da Miolo Wine Group. 

Com tantos atrativos compilados em um único pacote, meu maior desafio é atuar como um guia na roupagem de enólogo, que é a minha formação base. Tal feito me possibilita explorar melhor habilidades comunicativas, artísticas e didáticas. Afinal, falar sobre vinhos num contexto mais descontraído exige de mim bastante flexibilidade e uma espécie de “sexto sentido” para captar os níveis de conhecimento e exposição do público ao tema.

Minha parte favorita desse trabalho é, sem dúvida alguma, o poder transformador que existe no fato de a região do Vale do São Francisco ainda ser uma joia pouco lapidada e quase desconhecida no mundo dos vinhos. Os relatos dos turistas que já visitaram outras regiões vitivinícolas tradicionais pelo mundo são sempre muito parecidos quando pergunto: “Qual a sensação de visitar um dos únicos lugares do planeta que produz uvas e vinhos em clima tão atípico e simplesmente brilha nos resultados?”  A maioria, quase em consenso e com taças de espumante erguidas ao alto, responde: “é surpreendente!”, “mágico!”, “encantador!”. Isso para mim não tem preço.

  1. Oferecer consultoria

Pasha Bystrova, Ucrânia

Consultora de comunicação e turismo de vinhos na Wine Roots of Ukraine

Quando adentrei a esfera acadêmica e profissional do Enoturismo, eu não precisei mudar. O que mudou, na realidade, foi o ambiente de trabalho que passei a encontrar, com mais viagens, ar fresco, natureza, pessoas, vinho, comida e sim, um tanto de computador. Para quem não se imagina num só lugar, fazendo sempre a mesma coisa, este é um mundo a considerar.

Como consultor/a, é possível que as suas ideias nem sempre sejam únicas – às vezes elas são tão básicas como sugerir uma placa sinalizando a existência de um banheiro. Mas confie. Até os pequenos detalhes são capazes de render ao visitante mais conforto, estimulando-o a comprar mais vinho (quem imaginaria que uma plaquinha de banheiro seria sinônimo de venda de vinho?). Com sua ajuda, um bom trabalho enoturístico numa pequena vinícola familiar pode impactar o desenvolvimento de comunidades remotas, levar a uma gestão de destinação turística mais sustentável, melhor distribuição sazonal de turistas, preservação cultural e por aí vai. E veja que tudo isso começou com uma placa de banheiro. 🙂

Por outro lado, um/a consultor/a nem sempre será valorizado/a imediatamente. Aqueles que mais precisam de aconselhamento para o desenvolvimento enoturístico são aqueles que menos entendem do assunto. Às vezes até odeiam palavras como “marketing”, de forma inclusive a mostrar oposição à maioria das suas ideias. Mas vá com calma e não leve pro pessoal. Pode ser preciso tempo e esforço da sua parte para que confiem em você e no seu plano.

Em se tratando da viabilidade financeira para os/as que querem prestar consultoria, é bem provável que se termine por depender de grandes empresas. São elas que terão orçamento para os seus conselhos e projetos, mas também, provavelmente, já terão placas de banheiro. Neste caso, ainda é possível agregar valor, por exemplo, ao implementar diretrizes de sustentabilidade no planejamento turístico, considerando a cadeia produtiva, direitos humanos, meio ambiente etc. Alguma expertise em tendências pode ser o suficiente para influenciar fatores que, à primeira vista, não estão conectados, como a saúde dos vinhedos, o ambiente de trabalho e assim por diante.

  1. Servir em instituições públicas

Hayarpi Shahynian, Armênia

Especialista em Projetos Internacionais na Vine and Wine Foundation of Armenia, Ierevan

O meu trabalho consiste em coordenar, implementar e assistir projetos dos mais diversos no que diz respeito aos vinhos da Armênia. Para isso eu trabalho ao lado de executivos, viticultores e gerentes de projeto, só para dar alguns exemplos.

Os projetos variam: vão da presença dos vinhos da Armênia em feiras internacionais, como a Prowein, a festivais internacionais com a temática do vinho. Isso envolve preparar contratos, registrar vinícolas, cuidar de processos e cadastros, planejamentos orçamentários, apresentações, relatórios, estar em constante comunicação com players do setor, estabelecer critérios de seleção quando necessário, ajudar vinícolas na padronização de alguns parâmetros para a participação em eventos e programas, além de articular seminários, competições e degustações. Também envolve, muitas vezes, receber influenciadoras e influenciadores, blogueiros/as, jornalistas e profissionais de impacto e conduzi-los/as em visitas pelo território para promover o vinho de nosso país. Ah, também estamos trabalhando constantemente na nossa loja online.

A parte complicada é que, como se trata de uma fundação mantida pelo governo da Armênia, é preciso reportar ao ministério constantemente. Tudo o que fazemos, bem como os resultados, são sempre apresentados em relatórios, o que é bastante burocrático e exige alguma gestão do tempo.

A parte boa é que acabo por dinamizar muitas formas de colaboração com outros governos, museus, instituições culturais e gastronômicas, produtores, jornalistas e mais. A rede que se cria também acaba por ser enorme e recompensadora.

Trabalhar com enoturismo

Alguns pontos soam em uníssono nos relatos dos colegas: 1. é preciso flexibilidade, como em qualquer outro trabalho que lide com pessoas; 2. os trabalhos tendem a ser diversificados, por isso perfis que gostam das mesmas tarefas dia após dia podem ter mais dificuldade no setor; 3. A rede que se cria é diversificada e recompensadora, o que faz sentido num ramo que depende essencialmente de iniciativas de colaboração para funcionar bem. Vida longa ao enoturismo!

Assinatura Lana Ruff Vinhos Única

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