Vinho e Cannabis

Vinho e Maconha? Que brisa!

Algo que nem todos sabem é que cannabis nem sempre é sinônimo de maconha. A cannabis é um gênero de planta originária do continente asiático com diversas famílias de plantas atreladas, sendo as mais conhecidas a maconha e o cânhamo. A maconha (Cannabis sativa subespécie sativa) é uma droga ilícita no Brasil e ainda em vários países por apresentar alto teor de THC (Tetrahidrocanabinol) – substância com propriedades psicotrópicas e alucinógenas que podem causar dependência química nos usuários. A famosa “brisa” é causada por esse alto teor de THC. No entanto, o cânhamo (Cannabis sativa subespécie ruderalis), apesar de apresentar algumas similaridades com a maconha, já possui baixos níveis de THC, fazendo com que seja uma planta bastante visada para fins industriais e medicinais. Outra curiosidade é que as plantas do gênero cannabis são dioicas, ou seja, existem exemplares masculinos e femininos da planta, sendo que a planta fêmea normalmente possui uma maior quantidade de THC concentrado.

O THC é apenas um dos mais de 100 tipos de canabinoides diferentes encontrados nas plantas da espécie cannabis sativa, entre os quais está também o CBD (canabidiol). Colocando de forma popular, um é a Ruth e o outro a Raquel. Se o seu repertório de novelas da Globo não te ajudou, o THC é o vilão, e o CBD é o mocinho. Ou seja, o THC é o que dá a brisa da maconha, e o CBD é o calmante para tratamentos medicinais.

E agora eu pergunto: como o vinho se relaciona com isso? O fato é que, com a recente legalização da cannabis medicinal e recreativa em muitos estados dos EUA, em todo Canadá e em outros países, abriu-se oportunidade para uma série de novos produtos feitos à base da planta. O mundo vínico não ficaria de fora, e o que vem acontecendo nos últimos anos é o lançamento de mais e mais bebidas à base de vinho com infusão de cannabis. Elas já têm até uma categoria própria no mercado: chamam-se cannawine.

Cannabidio

Mas e mercado pra isso? Existe?

Aqui é importante entender que o mercado atual dessa categoria é onde o uso recreativo da substância é liberado. Quase 50 países ao redor do mundo já legalizaram o uso medicinal da cannabis, mas o uso para fins recreativos ainda é proibido em boa parte do mundo. Os países que já regulamentaram o uso recreativo são Canadá, Geórgia, Malta, México, África do Sul, Tailândia e Uruguai, além de 19 estados, 2 territórios e o distrito de Colúmbia nos Estados Unidos e o Território da Capital Australiana. Vale ressaltar que essa regulação para a comercialização de cannabis recreativa é diferente em cada país. Na Holanda, por exemplo, foi adotada uma política de aplicação limitada, em que a venda e o consumo são permitidos apenas em locais licenciados.

O que é sabido hoje é que o tamanho do mercado para produtos à base de cannabis é promissor. A tendência nos próximos anos é que os mesmos países que já aprovaram o uso medicinal acabem por criar leis permissivas ao consumo recreativo. O aumento das receitas fiscais nesses países, o crescimento do emprego e as oportunidades de investimento são incentivos poderosos para pressionar pela legalização. Segundo a Grand View Research, espera-se que o mercado global de cannabis aumente a uma taxa de crescimento anual composta de 25,5% de 2022 a 2030 para atingir US$102,2 bilhões até 2030.

Para entender o tamanho da indústria de cannabis e o crescimento vertiginoso nos EUA, um relatório da Leafly publicado pela Forbes estima que 32.700 empregos foram criados no setor em 2019, 77.300 em 2020, e 107.059 em 2021. Para pôr esse “boost” em perspectiva, a revista compara-o ao número de empregos criados pelo setor financeiro dos EUA em 2021: 145.000, não muito mais que a indústria da planta.

Mas voltando ao vinho…

Como em toda nova categoria de bebidas, as normas ainda são bastante obscuras e variam de lugar para lugar. Quanto mais os cannawines se popularizam, mais temos espaço para novas legislações detalhadas sobre o produto, o que ajuda o consumidor a confiar em sua qualidade. Por ora ainda é proibido nos EUA vender bebidas alcoólicas com THC, portanto nenhum produto disponível ao público para fins recreativos pode conter ambas substâncias.

Dessa forma os cannawines podem ser ou vinhos alcoólicos (como o vinho normal que consumimos) com infusão de CBD (o canabinoide mocinho), ou vinhos sem álcool com infusão de THC, CBD ou itens rotulados como tinctures, que são uma espécie de compostos de ervas e álcool para cuidados medicinais. Nos EUA essas três categorias são bem claras para quem produz, mas para o consumidor a falta de informação e a tradicional folha verde da maconha nas embalagens faz com que tudo fique muito confuso. Os consumidores normalmente compram os produtos acreditando que vão ficar “chapados”, mas, na verdade, não é bem assim. Afinal, boa parte dos produtos leva CBD em vez de THC, e por isso não cria essa brisa toda esperada pelos consumidores assíduos de maconha.

Os consumidores normalmente compram os produtos acreditando que vão ficar “chapados”, mas, na verdade, não é bem assim.

Para os mais bem informados, a saída para o consumo de THC com álcool nos EUA está dentro da categoria dos tinctures. Tecnicamente, o termo refere-se a um produto à base de álcool misturado com um óleo ou glicerina e uma infusão de ervas. Os tinctures são vendidos comumente em frascos de vidro de 30 mL com conta-gotas para administrar doses baixas como se fossem um remédio mesmo. Por não serem considerados um item alimentar, eles podem exceder o limite de 100 mg de THC, o que é proibido para os alimentos e bebidas. De qualquer forma, ainda é mais comum encontrar produtos à base de CBD, já que este canabinoide tem uma imagem mais saudável para a grande audiência. 

Tincture à base de CBD com sabor de Cabernet Sauvignon

Tincture à base de CBD com sabor de Cabernet Sauvignon

Segundo Lisa Molyneux, são inúmeros os produtos farmacêuticos que o vinho com infusão de cannabis poderia substituir.

Dentro da indústria de vinhos, a rainha dos wine tinctures é Lisa Molyneux, responsável pelas marcas Canna Vine e Know Label. Para Lisa, todos os vinhos produzidos com infusão de Cannabis deveriam se chamar wine tinctures. Em uma entrevista feita a Zach Sokol em 2018, ela afirma que vai lutar por essa definição, já que as tinctures são os medicamentos mais viáveis e estão disponíveis nas prateleiras das farmácias desde 1937. Ela garante que os vinhos com infusão que ela produz são verdadeiros remédios naturais, uma vez que auxiliam no sono, no alívio da dor, no relaxamento e em problemas nervosos. Segundo Lisa, são inúmeros os produtos farmacêuticos que o vinho com infusão de cannabis poderia substituir.

Novas marcas estão surgindo em todo o segmento de cannawine. A popular Rebel Coast cresce com o conceito de “não à ressaca” e baixas calorias, atraindo fãs de esportes e de uma vida mais saudável. Já a marca House of Saka apresenta a ideia de um vinho de luxo feito por e para mulheres.

Jamie Evans, também conhecida como “the Herb Somm”, ou seja, a sommelier da erva, é bem conhecida no espaço da cannabis graças a seus eventos, website e dois livros sobre o assunto. Em uma entrevista dada à Wine Enthusiast, Jamie explica por que o futuro do cannawine é promissor. Quanto mais a indústria de vinho zero álcool crescer, mais a categoria de vinhos com infusão de cannabis promete subir. Na visão dela, é uma questão de tempo para vermos locais voltados para o consumo de cannawine e experiências ligadas a esse setor. 

Se você conseguiu me acompanhar até aqui e não achou brisa demais esse papo de vinho com maconha, é porque você, assim como eu, é aficionada/o por tendências do mundo do vinho. E caso você esteja pensando que eu me inspirei para escrever esse texto depois de consumir um wine tincture, não foi o caso ainda. Não tive a oportunidade de provar os cannawines, mas após ler muito sobre vinho e cannabis, a única certeza que eu tenho é que já existem muitos produtores ganhando bastante dinheiro com isso e que esse assunto ainda vai render várias brisadas entre nós. Dá um dois, que a gente volta logo com cannawine! 😉

Assinatura Karene Vilela Vinhos Única

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