Será que nossa linguagem sobre vinho influencia nossas experiências sensoriais?

Será que nossa linguagem para falar e descrever vinhos influencia nossas experiências sensoriais?

Introdução

O vinho tem estimulado os sentidos humanos há séculos. Mas além dos seus sabores e aromas, existe um mundo igualmente complexo – a linguagem do vinho. Jamie Goode, renomado escritor de vinhos inglês, mergulhou neste assunto intrincado em um dos capítulos de seu livro “I Taste Red” (2016). Lá ele reconta a jornada histórica da linguagem do vinho, as influências culturais na percepção, a ciência do paladar e do olfato, o papel da metáfora e a necessidade de um vocabulário mais expansivo para discutirmos o vinho. 

Essa é a proposição do último artigo de 2023 desta coluna, tentar responder se a linguagem que usamos influencia nossas experiências sensoriais? 

Linguagem do Vinho: evolução histórica e o papel da ciência.

A jornada na linguagem do vinho começa com uma perspectiva histórica. As descrições de vinhos nem sempre foram as expressões elaboradas e matizadas que encontramos hoje. Retrocedendo às raízes da escrita sobre vinho, houve uma transição de descritores simplistas e funcionais para um léxico mais elaborado, agora empregado por entusiastas do vinho.

Nos séculos passados, a linguagem do vinho focava principalmente em características básicas – doçura, amargor ou cor. Henry Vizetelly e Andre Simon estavam entre os primeiros a trazer uma linguagem mais descritiva e colorida para o vinho. Esta evolução reflete as mudanças na própria indústria do vinho, transitando de um foco em qualidades básicas, como solidez e efeitos medicinais, para uma apreciação mais sofisticada de sabores, aromas e texturas.

Esta evolução histórica não é apenas sobre as palavras em si, mas sobre como a percepção e apreciação do vinho mudaram ao longo do tempo. Uma mudança refletida na linguagem usada na comunidade do vinho, que se tornou uma ferramenta de expressão e conexão, permitindo que as pessoas apreciem melhor as diferenças de cada garrafa.

A descrição do vinho não é apenas uma arte; é também uma ciência. Como bem sabemos, o cérebro é quem processa o paladar e o olfato (e você já aprendeu sobre isso aqui na Única). Este ângulo científico oferece uma compreensão mais profunda da tarefa complexa que é descrever um vinho  – nossos cérebros processam informações sensoriais de maneiras que nem sempre são diretas ou fáceis de articular.

Além disso, há o desafio de traduzir a experiência sensorial do vinho em forma de linguagem. O ato de descrever um vinho envolve mais do que apenas identificar sabores ou aromas; trata-se de transmitir uma experiência que é inerentemente subjetiva e pessoal. As bases científicas do paladar e do olfato adicionam outra camada de complexidade a essa tarefa, tornando a linguagem do vinho um campo constantemente evolutivo e dinâmico.

Degustação de vinho

O Vocabulário do Olfato e do Paladar e as vantagens de expandi-lo

Goode argumenta que nosso vocabulário para descrever o vinho é fortemente influenciado por nosso contexto cultural. Para consolidar esse entendimento, Goode usa o estudo de Azifa Majid, que pesquisou os povos Jihai na Malásia e os Manik na Tailândia. Esses grupos possuem um vocabulário rico e específico para cheiros, um contraste marcante com o léxico olfativo tipicamente limitado no mundo ocidental. Esta diferença sublinha um ponto crucial: a linguagem que usamos para descrever o vinho não é consistente universalmente, varia muito entre diversas culturas.

Na cultura ocidental, muitas vezes são usadas analogias e metáforas, comparando aromas e sabores do vinho a objetos conhecidos, como frutas ou especiarias. Em contraste, as comunidades Jihai e Manik usam termos diretos para cheiros, refletindo uma relação mais diversificada e imediata com seu ambiente olfativo. Esta distinção sugere que a cultura e a linguagem com que crescemos moldam não apenas como descrevemos o vinho, mas também como o experimentamos.

Assim, Goode sugere que a linguagem disponível pode influenciar a experiência sensorial. Esta ideia postula que alguém com um vocabulário amplo e diversificado para descrever o vinho pode perceber sutilezas e nuances de maneira diferente de alguém com um léxico mais limitado. Assim, a maneira como falamos sobre o vinho pode moldar e até limitar nossa percepção dele.

Esta influência cultural vai além do vocabulário. Por exemplo, diferentes culturas apreciadoras de vinho têm suas próprias tradições e expectativas, que podem influenciar sua abordagem à degustação de vinho. Assim, os perfis de sabor tradicionalmente apreciados nos vinhos franceses podem diferir significativamente daqueles favorecidos em regiões vinícolas do novo mundo, como Austrália ou as da América do Sul. Essas preferências muitas vezes se refletem na linguagem usada por críticos e entusiastas do vinho nessas regiões.

Goode defende que devemos expandir nosso vocabulário sobre vinhos não apenas pela precisão da descrição em si, mas também para enriquecer nossa experiência geral com o vinho. Goode argumenta que a adoção de termos e expressões de várias culturas também é uma exploração de novas maneiras de articular a experiência sensorial do vinho. Esta expansão não é sobre adotar palavras exóticas por novidade, mas sobre aprofundar nosso entendimento aprendendo com diferentes perspectivas culturais.

Nossa experiência com o vinho é tanto uma jornada cultural quanto sensorial. As palavras que usamos para descrever o vinho estão profundamente enraizadas em nosso contexto cultural, e ao explorar e abraçar a diversidade da linguagem do vinho de outras culturas, melhorará nossa apreciação e compreensão desta bebida complexa e encantadora.

As Bases Neurológicas do Paladar e do Olfato

Como já vimos aqui na Unica, o processo de como o cérebro interpreta os sabores e aromas do vinho é muito complexo. Aliás, este processo não é apenas sobre o ato físico de provar ou cheirar; ele envolve uma rede sofisticada de funções sensoriais e cognitivas. Goode explica como os sinais de paladar e olfato são processados por diferentes partes do cérebro, combinando-se com nossa memória e aprendizado para formar a percepção de um vinho específico.

A maneira como nosso cérebro processa esses sinais é crucial para entender por que descrever o vinho pode ser desafiador. Ao contrário da visão ou audição, o paladar e o olfato são sentidos mais abstratos, tornando mais difícil articulá-los em palavras. Essa dificuldade é agravada pelo fato de que a maioria dos aromas no vinho são, na verdade, misturas de vários cheiros, dificultando a identificação e isolamento de componentes individuais.

O Desafio de Descrever Experiências Sensoriais e o papel das metáforas na linguagem do Vinho

Embora o entendimento científico do paladar e do olfato tenha avançado, a tarefa de verbalizar essas experiências permanece complexa. Essa complexidade não se deve apenas às limitações da linguagem, mas também à natureza profundamente pessoal e subjetiva do paladar e do olfato.

Assim, a ciência do paladar e do olfato em vinhos não é apenas sobre identificar sabores e aromas e sim compreender as maneiras intrincadas pelas quais o nosso cérebro, a cultura e nossa história pessoal se entrelaçam para criar a experiência única de um copo de vinho. Para entusiastas e profissionais do vinho, desenvolver uma maior consciência desses fatores pode enriquecer não apenas como degustamos o vinho, mas também como comunicamos nossas experiências aos outros.

O papel da metáfora e da linguagem figurada emerge como um elemento crucial, preenchendo a lacuna entre experiências sensoriais complexas e expressão verbal. Essas ferramentas linguísticas não são meros enfeites, mas instrumentos essenciais para transmitir as experiências nuanciadas da degustação de vinhos.

Goode apresenta o argumento de que o uso de metáforas ao descrever vinhos nasce da necessidade. A experiência sensorial do vinho, abrangendo gosto, cheiro e textura, muitas vezes transcende a descrição direta. As metáforas tornam-se uma ponte, ajudando os degustadores a articular sua experiência em termos mais universais. Por exemplo, descrever um vinho como tendo uma textura de ‘seda’ ou sendo ‘aveludado’ transmite uma impressão sensorial vívida que transcende as limitações da linguagem literal.

Essa dependência da linguagem metafórica não é simplesmente uma questão de preferência, mas uma resposta ao desafio inerente em descrever as sensações complexas e muitas vezes abstratas experimentadas ao degustar vinhos. Goode enfatiza que, embora isso possa parecer poético, é, de fato, uma solução prática para um desafio linguístico.

Aprofundando a discussão sobre influências culturais, Goode observa que a escolha de metáforas pode variar significativamente entre diferentes culturas e experiências pessoais. Essa variabilidade não apenas reflete os diversos antecedentes dos degustadores, mas também as diferentes tradições de vinhos e vocabulários sensoriais prevalentes em várias culturas. Como tal, as metáforas empregadas nas descrições de vinhos podem oferecer insights sobre o background cultural e sensorial do degustador.

Por exemplo, um entusiasta do vinho de uma região onde certas frutas são comuns pode usar essas frutas como descritores (por exemplo, nós aqui no Brasil usarmos Goiaba ou Pitanga para descrever algo), enquanto outro de uma região diferente pode se inclinar para metáforas diferentes, localmente familiares (a famosa groselha, por exemplo). Essa diversidade na linguagem metafórica enriquece a experiência de degustação de vinhos, permitindo uma multiplicidade de perspectivas e descrições.

Um dos aspectos mais intrigantes discutidos por Goode é o impacto da linguagem metafórica na percepção do vinho. Ele postula que a linguagem usada para descrever o vinho pode influenciar como nós e outros o experimentamos. Quando um vinho é descrito usando uma metáfora particularmente evocativa, isso pode moldar as expectativas do degustador e, subsequentemente, sua experiência sensorial.

Esse fenômeno destaca a natureza interativa da linguagem e da percepção no contexto da degustação de vinhos. Como Goode sugere, as palavras escolhidas para descrever um vinho não refletem apenas a experiência do degustador; elas também podem desempenhar um papel na construção dessa experiência para os outros.

Expandindo o Vocabulário do Vinho e limitações da linguagem tradicional

No mundo dinâmico do vinho, a capacidade de articular as nuances do vinho é tão crucial quanto o ato de degustá-lo. Portanto, expandir o vocabulário do vinho não é apenas sobre acumular palavras, mas sobre enriquecer a comunicação do vinho. Goode explora como um léxico mais extenso pode aprimorar nossa compreensão e apreciação do vinho.

Goode reconhece a existência de limitações da linguagem tradicional do vinho, que muitas vezes depende de um conjunto de descritores padrão. Embora esses termos forneçam uma estrutura básica para discutir o vinho, eles podem ser inadequados para capturar todo o espectro de experiências sensoriais que um vinho oferece. Goode argumenta que, assim como o vinho em si é diverso e está em evolução, também deve ser nossa linguagem para descrevê-lo.

Retomando temas de seções anteriores, Goode enfatiza que nosso background cultural e experiências pessoais desempenham papéis significativos na formação de nosso vocabulário de vinhos. Ele defende a incorporação de palavras de várias culturas e tradições culinárias para descrever o vinho. Essa abordagem não só amplia nossa gama descritiva, mas também aprofunda nosso engajamento sensorial com o vinho. Por exemplo, usar um termo de outra culinária para descrever uma nota de sabor no vinho pode oferecer uma perspectiva nova e uma representação mais precisa da experiência de degustação.

Goode reforça a importância de expandir nosso vocabulário além dos descritores de sabor. Ele incentiva a inclusão de termos que transmitam textura, sensação na boca e as respostas emocionais evocadas pelo vinho. Essa abordagem holística para descrever o vinho pode levar a uma experiência de degustação mais completa e satisfatória.

Dicas Práticas para melhorar sua linguagem na degustação e descrição de Vinhos

Esta seção destila dicas práticas e diretrizes extraídas do extenso conhecimento de Goode, com o objetivo de aprimorar a experiência de degustação de vinhos e a articulação dela. Essas dicas servem como uma ponte entre os aspectos teóricos da linguagem do vinho e sua aplicação prática.

Comece com a Imersão Sensorial

Goode enfatiza a importância da imersão sensorial antes de mergulhar na análise descritiva. Ele defende experimentar o vinho inicialmente sem a pressa de imediatamente descrevê-lo. Esta abordagem permite uma conexão mais profunda com o vinho, deixando seus sabores, aromas e texturas causarem um impacto sensorial mais profundo. Trata-se de estar presente no momento, permitindo que o vinho revele sua história ao degustador.

Desenvolver uma Rotina Pessoal de Degustação

Desenvolver uma rotina pessoal de degustação é crucial para a consistência e profundidade na análise do vinho. Goode sugere começar pela aparência, em seguida pelos aromas e, finalmente, pelo paladar. Essa abordagem sistemática garante que todos os aspectos do vinho sejam considerados. Ele também recomenda fazer anotações durante o processo para acompanhar impressões e pensamentos, o que ajudará para desenvolver um vocabulário sobre vinhos mais articulado.

Expandir Além dos Descritores Padrão

Em linha com sua defesa por um vocabulário de vinhos expandido, Goode encoraja os degustadores a aventurarem-se além dos descritores padrão. Isso pode envolver emprestar termos de outras experiências sensoriais, como comparar a textura de um vinho a um tecido ou seu peso a uma nota musical. Essas analogias podem muitas vezes fornecer uma descrição mais vívida e precisa do vinho do que os termos de degustação tradicionais.

Prática e Comparação

Goode enfatiza o valor da prática e comparação no aprimoramento das habilidades de degustação. Degustar regularmente não apenas aguça o paladar, mas também constrói uma biblioteca mental de sabores e texturas. Ele sugere comparar diferentes vinhos lado a lado para entender melhor suas nuances. Essa prática pode destacar as características distintas das variedades de uvas, técnicas de vinificação e terroir.

Participar de Degustações em Grupo

Participar de degustações em grupo pode ser extremamente benéfico, pois experiências

compartilhadas podem oferecer perspectivas e insights diversos. Goode aponta que discutir vinhos com outras pessoas pode abrir novas vias de compreensão e apreciação. Também proporciona uma oportunidade para testar e refinar as habilidades descritivas em um ambiente colaborativo.

Por fim, Goode nos lembra de abraçar a subjetividade inerente à degustação de vinhos. Experiências pessoais, memórias e preferências influenciam significativamente como percebemos e descrevemos o vinho. Reconhecer essa subjetividade permite uma conexão mais autêntica e pessoal com o vinho, tornando cada experiência de degustação única e valiosa.

Conclusão: linguagem influencia sim o sensorial

Torna-se claro que a jornada pelo mundo dos vinhos é tão complexa quanto empolgante, envolvendo uma interação intrincada não só entre nossos sentidos (ver matéria aqui da Única sobre Crossmodalidade), mas também a linguagem e o contexto cultural.

Nossas experiências pessoais, memórias e sensoriais desempenham um papel significativo na forma como percebemos o vinho. Abraçar essa subjetividade enriquece nossas experiências com vinho, permitindo uma conexão mais pessoal e autêntica com cada taça.

Portanto, expandir e aperfeiçoar nossa linguagem sobre vinhos é um aspecto crucial não apenas para ampliar nosso vocabulário sensorial, mas também para usá-lo com discernimento, equilibrando precisão com criatividade.

Essa abordagem nos desafia a sermos precisos e imaginativos em nossas descrições, tornando o ato de degustar vinhos tanto uma empreitada de disciplina quanto artística. 

Portanto, sim caro leitor, a linguagem influencia nossas experiências sensoriais – e leve isso em consideração daqui adiante – .

E obrigado a você leitor! Feliz natal e próspero ano novo! 

Assinatura Única Pablo Fernandez

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